sábado, 7 de maio de 2011

O sonho de um garotinho de 7 anos de idade

O último Desafio trouxe uma imagem de uma prova que foi um marco na história do automobilismo gaúcho. Ela mostrava o grid de largada da primeira prova da então chamada Standard 1600, que depois seria chamada de Speed 1600, a categoria dos Fusquinhas, que teve início em meados de 1988 em Tarumã. Em destaque aparecia o #27 do piloto de Giruá, Licínio de Oliveira Neto que foi o pole e o vencedor daquela primeira prova.

Quem enviou o registro foi o piloto Ayrton Brum, que competiu na categoria entre 1989 e 1998. Ele mesmo fez as fotos, acompanhando toda a movimentação de perto, pois seu objetivo era competir na categoria. Ele lembra que acompanhou inclusive a vistoria técnica feita no carro do vencedor (Licínio), pois já queria entrar com seu carro sem problemas nas vistorias. Aproveito para publicar uma feita por mim, ao final da bateria daquela primeira prova. É a última desta sequência.





O Brum me enviou a história dele, contando como surgiu o sonho de pilotar e detalhes de seu primeiro contato com o automobilismo, na escola de pilotagem em 1987. É muito bacana e vale a pena a leitura. Acelera, Ayrton Brum!!!

"Nasci na cidade de Uruguaiana, logo após o natal de 1957, uma cidade do interior do RS, onde não há e nunca houve um autódromo ou qualquer tipo de corrida.

O máximo em relação a carros e competição que apareceu na cidade, na década de 60, eram os Fuscas da equipe "J. CARDOSO" que na época faziam demonstrações de Cavalo de Pau e andar com os carros em 2 rodas.

Nessa década de 60 eu ficava maravilhado olhando os jornais da época falando nas corridas de Mil Milhas e as tradicionais provas no Circuito da Cavalhada e Pedra Redonda, que eu nem imaginava que nos dias de hoje viria a morar justamente na zona sul da capital.

Já na década de 70, logo no início, ficava maravilhado com os carros de corrida, os quais hoje mato a saudade vendo as mesmas fotos em teu blog. Eram Simcas, Fuscas, Opalas e outros.

O dia em que o Pedro Carneiro Pereira faleceu eu ainda morava em Uruguaiana e na casa de minha avó escutava o jogo da dupla Grenal naquele Domingo.

Ouvi a notícia da morte daquele grande piloto e com uma mistura de tristeza, fiz um juramento a mim mesmo: um dia irei correr nesse tal Autódromo de Tarumã. Falei essa frase a mim mesmo e até hoje não sei se foi um juramento, um pedido, ou um conforto ao Pedro, e não tinha a mínima ideia de onde ficava Tarumã. Obs: a minha corrida de despedida, as 12 Horas de 1998, levou o nome de Pedro Carneiro Pereira. Esse troféu é muito especial para mim.

Os anos se passaram e todos os dias eu sonhava, literalmente, TODOS os dias eu imaginava como seria pilotar um carro de corrida.

A vida passou, vim morar em Porto Alegre, e o sonho cada vez mais me incomodando.

Sempre lendo matérias de automobilismo nos jornais, lembro que na década de 70 ou 80 o Cláudio Mueller estava com uma escolinha de pilotagem e lá fui eu me informar. Se não me engano, o escritório dele era na Correia Lima esquina com a José de Alencar. Mas o curso era muito caro para mim.

Continuei sempre acompanhando notícias de carros de corrida, e sempre esperando uma luz, um sinal, alguma coisa no jornal que me levasse a correr.

Em Junho de 1987 achei no jornal o que eu procurava há mais de 20 anos: a Escola de Pilotagem Interlagos viria à Guaporé dar um curso (caríssimo para minhas condições) de uma semana, no final de Agosto de 1987, mas era agora ou nunca. Juntei o dinheiro que pude e fui me inscrever. Lembro que foi em um escritório de uma pessoa na Rua Cipó. Tenho ainda o recibo de minha inscrição.

O Toninho de Souza, que era o organizador da F3 Sulamericana na época, era o Dono da Escola. Nesse curso vi a oportunidade que esperava desde os meus 7 anos de idade.

O curso de pilotagem seria ministrado na última semana de Agosto de 1987, em Guaporé, com as seguintes características:
- Quatro carros Gol, motor 1.6, com dois bancos de competição (aluno + instrutor);
- Aulas teóricas e práticas;
- Prova final do dia 30/08/87;
- Somente conseguiria aprovação quem obtivesse um tempo mínimo cronometrado;
- O certificado daria direito a encaminhar a carteira de piloto junto à FGA e CBA.

A aula teórica, dada em um dia, consistia dos seguintes módulos (no restaurante do Radiador):
- Regulamento FIA;
- Montagem do carro;
- Bandeiras;
- Marketing para buscar patrocínio;
- Dicas de pilotagem - Traçado, Punta-Taco, leitura de relógios, etc.

A nota mínima para aprovação era 7.

A aula prática acompanhado do instrutor seria dada em um dia. O instrutor ficava sentado ao lado com uma planilha (parecia auto escola) anotando tudo. Verificava se você fazia o Punta Taco, se ficava com o pé na embreagem ou a mão no câmbio.

As aulas práticas sozinho eram em dois dias. Os instrutores ficavam nas curvas avaliando.

Havia por fim uma prova prática cronometrada, com tempo mínimo a ser determinado.

Para baratear o custo com o Hotel Topo Gigio, a organização do curso reservou os apartamentos com dois alunos por quarto.

Eu fui, pela ansiedade de fazer o curso, o primeiro a chegar à Guaporé e a me instalar no hotel, pois cheguei com um dia de antecedência.

O segundo aluno a chegar foi o Luiz Afonso Schiafino, nos apresentamos, conversamos junto à janela do quarto e ele me falou que tinha ganho o curso por responder a uma rádio, algumas perguntas sobre a Fórmula 1. Brincando com ele, lembro que comentei: Pô cara, que sorte você teve, eu tive que pagar uma grana pelo curso.

Eu já estava preparado para esse curso há 20 anos. Levei meu capacete, minhas luvas, e ele me disse que não tinha trazido nada, pois não sabia que tinha que levar esse material. Eu disse que ele podia usar o meu capacete, que como eram quatro carros, enquanto um fazia a aula (usando o capacete) o outro ficava de fora batendo fotos.

Fizemos uma amizade muito boa, pois o sonho, era o mesmo. À noite estudávamos as bandeiras e toda a parte teórica do curso, pois teria a prova da parte teórica. Combinamos montar um carro para corrermos os dois juntos, ele venderia o Kart que ele tinha, para entrar com a parte dele.

O Luiz Afonso é um que aparece nas fotos de cabeça baixa, com uma jaqueta marrom.

Não tenho mais fotos dele, pois depois do acidente que ele sofreu, dei de presente todas as fotos do curso que tinha dele.

Fizemos o curso e a prova final foi no domingo, dia 30 de Agosto de 1987. No retorno do autódromo ofereci carona de volta a Porto Alegre para o Luiz Afonso.

Alguns alunos não conseguiram aprovação e na alegria e euforia de ter sido aprovado no curso, fui ligar para minha esposa que tinha ficado em Farroupilha e avisei ao Luiz Afonso que teria que passar em Farroupilha para pegar ela e ele me disse que tudo bem, iria comigo.

Enquanto ligava para minha esposa ele consegui carona no Chevette com motor de Opala, que estava com alguns dos instrutores. Na correria para pegar a carona, ele se despediu de mim e me disse que iria no Chevette, pois eles desceriam direto até Porto Alegre, e que me ligaria para combinarmos a montagem do nosso carro.

Um outro aluno, o Waldemar Max, também pediu para ir de carona no carro, mas o dono do carro não queria levar quatro pessoas e o Waldemar ficou de fora.

De volta a Porto Alegre, na segunda-feira logo pela manhã, abro o jornal Zero Hora, e vejo na capa a notícia "Tragédia com Alunos do Curso de Pilotagem na Volta de Guaporé". No jornal aparecia foto de um corpo coberto na beira da estrada, era do instrutor que se chamava Ricardo Lima, ele aparece nas fotos de abrigo azul ao lado do carro da escola e me falaram que ele era um dos donos da Sulcolor. Eu fui o último aluno que ele passou seu conhecimento, pois fiquei na última turma dele, e fui o último aluno que andou com ele no carro, depois nós andamos sem instrutor. Ele tinha deixado a empresa para ensinar o que mais gostava.

No acidente, o Luiz Afonso foi levado para o Hospital em coma irreversível. O instrutor que dirigia o Chevette sobreviveu. Encontrei ele em Tarumã, anos depois. O amigo Luiz Afonso ainda resistiu sete dias e faleceu dia 7 de Setembro de 87.

Passado uns seis meses, me procuram em casa, a irmã e a noiva do Luiz Afonso. Não sei como sabiam que eu tinha feito o curso com ele, e nem como descobriram meu endereço. Selecionei todas as fotos que tinha do meu amigo e dei de presente aos familiares dele.

Alguns alunos do curso: Ayrton Brum, Licínio de Oliveira Neto (conhecido como Giruá), o preparador do Licínio, o Waldemar Max (correu comigo as 12 Horas de 1998 e escapou do acidente por não ter lugar no carro), José Bergamini. Os outros alunos não encontrei mais, e nem tive conhecimento se chegaram a pilotar".






O Ayrton Brum vai continuar a nos contar sua história no automobilismo. Aguardem.

Fonte das imagens: arquivo Ayrton Brum e arquivo pessoal.

13 comentários:

Francis Henrique Trennepohl disse...

PQP, de ARREPIAR!!!!!!!!!!!!
Ayrton, que história, hein?
Só faltou você dizer que tudo isso teve um recomeço no dia 08 de Abril de 2010, quando fui à POA buscar o meu sonho, que era seu.
Foi um baita prazer ter te conhecido, e tenha certeza que "seu bebê" está em boa mãos.
Abraços empoeirados

Anônimo disse...

Buenas!
parab[éns ao Ayrton pela coragem e determinação. Eu também tinha estes sonhos, mas preferí ficar me emborrachando nos fandangos da fronteira.
Abraço.
Pedrão - SMO

luizborgmann disse...

Encontrei o Brum há alguns dias e somos vizinhos de bairro, conversamos a respeito do Speed que ele vendeu para o nosso amigo Francis. Conversamos ainda a respeito dos Fuscas de rua com motorização AP que temos, mas ele está muito interessado em voltar às corridas, mas agora ele só quer sentar no carro, não quer mais incomodação com peças, reboque, leva-traz, etc. É interessante o comentário do Brum, ao trazer o carro depois de uma corrida em Tarumã, os mecânicos não tinham amarrado o carro no reboque nem deixado marcha engatada, e o carro escorregou do reboque no trajeto de retorno. Vamos aguardar as fotos do Brum, a Speed com grids imensos, tem uma em que ele aparece na curva um de Tarumã puxando a fila, bela foto.
luiz borgmann

waleska disse...

É senninha,adorei conhecer este teu lado. bjs

Anônimo disse...

A Copa Fusca tem tudo para voltar a dar certo, o Urbano da Silva, um dos grandes nomes da categoria, ta de volta à mesma para dar uma força, não na pista, mas nos bastidores. Mas, quem sabe sem uma forcinha o Vovô Voador não acelera um Fusquinha de novo?

Cesar Cardoso45Racing disse...

Ayrtom Cardoso fiquei feliz em saber qeu você vem de URUGUAIANA cidade natal do patriarca da nóssa fam;CARDOSO. Gostaria de conversar com você sobre corridas e de nóssos antepassados,meu avô MIGUEL CARDOSO foi um dos fundadores e goleiro do FERRO CARRIL ,e do HOTEL URUGUAENSE.Meu pai saiu ruma a (POA) com 15 anos e montou agui sua oficina(auto elétro)e sempre esteve envolvido com automobilismo motociclismo e nós continuamos sua paixão com a AUTO RACING / MOTORCAR / FAST RACING / 45 RACING .Abraço!deste piá(55)louco por corridas aé de carrinho de lomba!/////////cardoso.cesar45racing@gmail.com

CESAR CARDOSORACING disse...

Amigo SANCO parabéns o blog esta cada vez melhor .Da p/você corigir o sobrenome trocado no meu ultimo comentario.ABRAÇÃO!

Brum disse...

Cardoso.....

Será um prazer conversar com você, meu assunto favorito são as corridas.
Por falar em carrinho de lomba, desputei muita corrida de carrinho de lomba em Uruguaiana, na ladeira da rua Monte Caseiros, partia da Duque de Caxias em direção a rua Domingos de Almeida....
Meu telefone eh (051) 911.311.78 (Teria que ter o numero 11 em meu telefone)........abraço

Roberto Lacombe disse...

Também fiz o curso, lembro do Roberto Manzini e do Jindra Kraucher de professores, dos alunos (+ de 30) lembro do Luciano Fossá, do Pierre Kleinubing e do 'véio' Linoir Casarotto, único que fez o curso de Fórmula.
O Organizador do curso era o Roberto Porto.

Brum disse...

Lacombe.

Essa turma que vc relacionou, foi outra turma.
Mas um dos meus Instrutores foi o Roberto Manzini, e na época disseram que o Gil de Ferran seria um dos instrutores, mas que ele tinha partido para a Europa naquele ano.

Blog Telecom disse...

Fala Brum, tantos anos trabalhamos juntos e eu desconhecia tua maravilhosa história.
Um grande abraço,
Sérgio Cabrera

Mari disse...

Caro Brum,
lendo a tua historia, lembrei das tua historias quando trabalhavamos juntos e sempre desse teu amor pelas corridas, pelo Fusca. Sempre admirei teu coração Brum, conhecia um outro lado de ti, de familia, de bom fiho, bom pai, é Brum, muito bom ter sido tua colega de trabalho melhor ainda te ter como amigo!

Brum disse...

Mari...

vc eh suspeita em falar de mim, pois sempre foste minha grande amiga...
Eh bom reencontrar o pessoal do SERPRO, pois sinto saudade do pessoal que la deixei, especialmente de vc....um beso