Mostrando postagens com marcador Ayrton Brum. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ayrton Brum. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 26 de julho de 2011

Construção de um sonho

Ao longo desses últimos posts, transcrevi a história do amigo Ayrton Brum nas pistas. A cada post era nítido o carinho que ele demonstrava para com o Speed #11. Acompanhamos toda a história dele, desde quando fora adquirido do piloto João da Silva, de Montenegro. A última corrida dele em solo gaúcho foi contada aqui no post de ontem, as 12 Horas de 1998. Após aquela prova, o Speed #11 descansou por um bom tempo até que um outro sonho iria fazer roncar o seu motor novamente.

Foi através do blog que conheci um guri lá de Floripa, pra lá de bacana, que passava por aqui todos os dias e que não demorou muito para também entrar na web com seu blog empoeirado. Lá pelos meados de 2009 ele procurava por um Fusca para correr na terra e até tentei alguns contatos por aqui para tentar ajudá-lo, sem muito sucesso.

Daí o guri, que atende pelo nome Francis, encontrou o Speed #11 do Brum e como ele mesmo disse, foi amor à primeira vista. Assim, o Speed do Brum, passou a ser o Speed do Francis, deixando Porto Alegre para seguir para Florianópolis e ajudar o Francis a realizar o seu sonho, o de correr na terra com um Fusca.

Acompanhamos a luta dele para colocar a barata na pista, desde a preparação da carroceria, pintura, mecânica, até ir para a primeira prova. De lá para cá o que temos acompanhado no Poeira na Veia são as alegrias que o carrinho tem dado ao amigo. O Speed #11 não poderia estar em melhores mãos. No último domingo o Francis e seu Speed correram as "100 Milhas de São Bento do Sul", a Indianápolis da terra, como diz o Francis. Dando uma olhada mais de perto na caranga, descobri que tem até um decalque do bloguesinho aqui. Acho que isso é uma intimação para eu me "coçar nos pilas" como se diz nos lados de cá do Mampituba. Vou pensar no assunto.

Bacana isso. Um mesmo carro que ajudou a realizar o sonho de duas pessoas em momentos e lugares distintos. É, esse Speed tem mesmo muita história para contar...









Fonte das imagens: arquivo Ayrton Brum e Francis Trennepohl

segunda-feira, 25 de julho de 2011

12 Horas de Tarumã - 1998

Hoje publico um post sobre a última prova disputada pelo Ayrton Brum. Após a vitória nas 12 Horas de 96, Brum ficaria de fora das temporadas de 97 e 98 da Speed 1600, voltando nas 12 Horas de 98. Ele nos traz todos os detalhes de como foi aquela prova.

"Neste ano resolvi não disputar o Campeonato Gaúcho, mas me dedicar somente as 12 Horas, que era a prova que mais prazer sentia em disputar. Me procurou o colega de Curso de Pilotagem, Waldemar Max, fizemos uns acertos e resolvemos disputar as 12 Horas de dupla, somente os dois na pilotagem.

O carro foi preparado pelo João Mascarello, fizemos a desmontagem total do carro e praticamente refizemos o carro na parte mecânica e elétrica. Com exceção da parte estética, todo o resto era novo, com peças novas, esquema para vencer.

Na tomada de tempo abri a volta cronometrada e quando cheguei na curva do Laço, disparou o motor e para não "tirar de giro" desliguei e encostei na parte interna na curva. Não consegui fazer uma volta sequer cronometrada e fui para a última posição no grid. Tinha soltado uma agulha do carburador.

Na largada, estilo "LE MANS", os carros ficavam parados com a chave geral desligada e ao dar a largada, o outro piloto corria em direção ao carro, ligando a chave geral e assim o piloto dentro do carro dava a partida.

A estratégia seria, por eu ser mais experiente, largar e pilotar as três primeiras horas, que era o máximo que o regulamento permitia para o início de provas longas, e a minha parte da pilotagem também previa a última parte, que seria a chegada, caso ainda estivessemos na prova.

Assim, esperei com a primeira marcha engatada, pé na embreagem e o dedo colado no botão de partida. Ao dar a largada, acelerei e a mão do botão de partida já escorregou para o câmbio engatando a segunda marcha e entre Chevettes, Voyages, Corsas, fui abrindo caminho em direção a Curva 1.

Fizemos dois Pit Stops no início da madrugada, sempre comigo pilotando. No terceiro, assumiu o Waldemar Max, isso já às 3:00 da madrugada. Na primeira volta o carro não aponta na Curva 9, depois de eternos minutos, vem o Speed 11, lentamente em direção ao box, tinha saltado fora a correia.

O Mascarello sempre com a técnica de colocar a correia com o motor funcionando, colocou nova correia e novamente estávamos na prova, embora nas últimas posições.

Às 5:00 da manhã entra novamente no box o carro com os faróis quebrados devido a uma batida. Assumi o carro com os faróis que sobraram virados para baixo, mas como o dia estava amanhecendo, não atrapalhou muito e assim fomos encontrando a manhã, já cansados, os olhos ardendo e o sono incomodando.

As 10:00 da manhã assumo o carro e noto que tínhamos uma vareta de válvula torta, o carro não passava de 4.500 rpm e quando forçava a terceira marcha, a vareta vibrava e ameaçava quebrar. Tive que começar a cambiar bem antes do normal.

As 10:30 o carro perde completamente o freio, nada de freio, o pedal ficou igual ao da embreagem, pois tinha partido um cano do freio de uma das rodas traseiras e a direção da prova estava começando a chamar os carros para as penalizações, por algum problema na madrugada. Ao passar na reta vejo na mão do diretor de prova a bandeira com o numero 11 para cumprir a penalização na saída dos box e assim, na volta seguinte me dirigi para o local determinado. Mas, ao chegar ao local, o dirigente me aguardava parado na saída do box e eu sem freio e sem poder segurar na caixa, senão a varetinha de válvula quebrava, fiz sinal para ele sair, ou iria ser atropelado e ele, quando notou que eu não tinha freio, fez sinal para eu continuar e retornar à pista.

Nas voltas seguintes, fiquei observando se seria dado bandeira preta para o Speed 11, ou se eu seria chamado novamente para cumprir a penalização. Para meu alívio, veio novamente a bandeira para cumprir penalização e não a desclassificação da prova.

Mas agora, o diretor da prova me aguardava não na minha frente, mas mais junto ao muro do box, e aí pude explicar que estava sem freio e sem condições de segurar na caixa de câmbio, o que ele sorridente me disse que dera para notar, pois quase fora atropelado. Assim regressei a prova, sempre pilotando o Speed 11, pois o Mascarello sugeriu, e eu concordei, em levar o carro até a bandeirada pelo estado que ele se encontrava, e por ter mais experiência.

Assim, fui me arrastando e cada vez o carro mais lento e perdendo rendimento. Quando entrava o Pace Car e andávamos lentos, eu tinha que manter a rotação do motor alto, pois eu sentia que se apagasse o motor, ele não pegaria mais.

Procurava tirar o máximo de proveito quando conseguia e nas curva onde precisava de freio, fazia a traseira escapar lentamente e matar um pouco a velocidade para contornar o Laço. No Tala entrava direto, pois ele não ganhava muita velocidade entre o Laço e o Tala Larga.

Às 11:30, no último pit stop, o Mascarello me avisou que estávamos em terceiro lugar e que o carro do Marco Pinto, que estava na segunda posição, tinha abandonado na Curva do Tala, e que nós tínhamos 409 voltas e eles tinham 419 voltas e se quiséssemos o segundo lugar, teria de tirar essas 10 voltas nos 30 minutos finais.

Nessa última meia hora de prova o Speed 11 estava cada vez pior, isso me desgastava muito na pilotagem e várias vezes conversava com ele pedindo: Filho, aguenta mais um pouco, não me abandona agora. Conversava com ele e procurava aproveitar o máximo aquelas imagens de dentro da pista, pois algo em meu coração dizia: Você não verá mais essas imagens e não sentirá mais essa adrenalina; É hora de voltar para casa.

Na última volta, ao sair da Curva 9 e entrar na reta, vi a bandeira quadriculada, ainda não sabia que tinha tirado as 10 voltas de vantagem e que estava em segundo lugar. Acendi os poucos faróis que me restavam, as lágrimas escorreram, passei a linha de chegada sem enxergar direito e encostei o Speed 11 no parque fechado, e depois da vistoria, ao levar ele de volta ao box, o motor não pegou mais, tivemos que empurrá-lo.

No podium novamente olhei com carinho e me despedi daquele lugar, pois sabia que não o veria mais, como realmente foi. O meu troféu de segundo lugar me foi entregue pelo filho do Pedro Carneiro Pereira, morto na década de 70, e ao apertar a mão do filho do Pedro, eu sentia que era o próprio Pedro que me entregava o troféu.

Retornei ao box número 7, que foi o último que utilizei. Juntei meu material de corrida, meu troféu e meio sem rumo, voltei para casa.

Mesmo após pilotar o total de nove horas, não conseguia dormir naquela tarde de domingo, sentia uma mistura de alegria, tristeza, ansiedade e saudade. Nunca mais retornei ao Autódromo de Tarumã. Se um dia voltar ao Autódromo onde fui tão feliz, não será do lado das arquibancadas."


Estava fechada a história da trajetória do Brum nas pistas, pelo menos aqui no blog. Mas o Speed #11 não ficaria inativo por muito tempo. Um grande amigo se encarregaria de dar nova vida ao simpático carrinho. Conto mais sobre isso amanhã. Ao Brum, o meu muito obrigado por dividir todas as suas histórias com a turma aqui.








Fonte das imagens: arquivo Ayrton Brum.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Finalmente Campeão

Hoje o Ayrton Brum nos conta a história de sua primeira vitória nas tão sonhadas 12 Horas. Foi em 1996. Confiram.

"Neste ano, novamente, por disputar somente as provas em Tarumã, foi um ano de poucos fatos relevantes dentro do Campeonato Gaúcho.

Sempre senti um gosto especial pelas provas longas, as 12 Horas de Tarumã. Já estava em destaque como a que mais me dava prazer em pilotar, especialmente pela parte noturna. Depois, pela manhã, ver o dia amanhecer, o “pau comendo”, e ainda ter um carro inteiro, depois de atravessar a madrugada, é uma sensação que somente quem já disputou pode sentir, descrever, é muito vago.

Para essa prova fiz uma parceria com os Pilotos Gelson Zauer e o Dr. Hugo Vargas. Iríamos correr no carro do Gelson com o numero 21, pois não queria colocar o meu Speed 11 em uma prova de 12 horas.

Foi uma parceria perfeita, onde desde a preparação do carro, com peças novas e revisão do carro, até a estratégia de pilotagem, foi feita em comum acordo, com responsabilidade de três pessoas que queriam somente uma coisa, a vitória. Sem estrelismo e sem um querer ser melhor que o outro e baixar o tempo que tínhamos estipulado em virar volta a volta.

O preparador do carro na época era o Amilton de Viamão e eu, como sendo convidado, fui para a equipe, levando meu patrocinador e fiquei responsável pelo pagamento do preparador.

Ele decidiu que iria mexer no carro para as 12 Horas. Iria deixar a suspensão traseira mais em pé, para economizar pneus, embora eu não concordasse, pois o carro além de ficar mais arisco, ia desgastar igualmente os pneus, pois entraríamos mais atravessado nas curvas. Mas como eu era convidado, tinha que me adaptar ao carro e a equipe.

O Amilton preparou outro carro igualzinho ao nosso, que era o do Piccini. O Gelson largou, por ser o dono do carro, depois assumiu o Dr. Hugo e eu fui o último a assumir a pilotagem, às 3hs da madrugada.

Os dois carros foram sempre andando parelho. O nosso com poucas voltas de vantagem sobre o outro.

No início da manhã recebi o carro do Dr. Hugo e ele, com muita responsabilidade, disse que tinha pego uma "lavadeira" na saída da curva do Laço, e que olhassem rápido o carro por baixo, enquanto abastecíamos.

O pessoal da equipe me avisou, enquanto eu amarrava o cinto, que estava tudo bem com o carro, que apenas tinha marcas do contato com a lavadeira, e ainda disseram: pode pisar Brum, não aconteceu nada com o carro.

Assim fui, por volta das 8hs da manhã. Éramos líderes na nossa categoria, mas faltava muita corrida.

Fazia a curva 8 em direção a curva 9 quando o carro se envolve todo em fumaça, de uma hora para outra, sem sequer ter havido qualquer motivo. Primeira coisa que me veio à cabeça foi: Meu Deus, não faz isso comigo, estamos liderando, preciso desse titulo. Passei os olhos nos relógios, e com exceção da pressão do óleo ter caído, os outros todos estavam normais e a luz do óleo não chegou a acender. Pisei para ver se o motor respondia e ele respondeu de imediato. Mesmo assim, tirei o carro do traçado e continuei acelerando na mesma velocidade que vinha. Tomei rumo aos boxes. Lembrei do Dr. Hugo ter pego a lavadeira, pois era única explicação, e o óleo escorrendo no motor quente, fazia a fumaça. Na entrada dos boxes, olhei pelo retrovisor e vi o rastro de óleo no asfalto, bati na chave, desliguei o motor e entrei no embalo.

Cheguei aos boxes gritando: TAMPÃO DE ÓLEO...TAMPÃO DE ÓLEO! Enquanto a equipe recolocava o tampão, bati no cinto e fizemos a troca de piloto. O Amilton me perguntou se a luz do óleo tinha acendido e respondi que não chegou a acender. Olhei para o motor reserva em um canto do box, e vi o óleo escorrendo, aí vi de onde eles tinham tirado um outro tampão.
Voltamos ainda na liderança, com quatro voltas de vantagem sobre o outro carro da equipe.

Por volta das 11hs o Dr. Hugo passa na reta com o carro lento, acelerando e desligando o motor, acelerava e novamente desligava. Ao entrar no box descobrimos que tinha rebentado a correia, trocamos e voltamos para a corrida ainda com duas voltas de vantagem sobre o segundo colocado.

Às 11:45 da manhã minhas pernas tremiam parado junto a mureta e o Gelson estava na pilotagem. Ele passou mais lento que o normal, fazendo sinal para traz, sinalizando que o motor não estava legal. Depois vim a saber que um prisioneiro do motor estava solto.

Ganhamos as 12 Horas na nossa categoria, com apenas duas voltas de vantagem, e chegamos em oitavo lugar na Geral.

Era o topo e, claro, o objetivo final de todo piloto, seja em que categoria for, vencer as 12 Horas de Tarumã. Estava realizado com chave de ouro o sonho que aquele garotinho vinha sonhando desde os sete anos de idade, e melhor do que ele esperava."

Abaixo alguns registros daquela prova. De cima para baixo, pela manhã, contornando a curva 1, o detalhe da suspensão traseira em pé, a comemoração na pista e no pódio.





Fonte das imagens: arquivo Ayrton Brum.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Do inferno ao céu em uma volta

Hoje continuo com a história do Ayrton Brum. Já estamos em 1995. Vai que é tua, Brum!

"Um ano difícil, onde disputei nos meses de Janeiro, Fevereiro e Março o Torneio de Verão, que eram provas de 3 horas de duração, sempre numa quarta-feira à noite, sendo a largada da primeira bateria às 21hs com bateria de 1 hora de duração. Podia ser disputada por somente um piloto, com um intervalos de 30 minutos entre uma bateria e outra, e o Brum, fominha como sempre, disputou a prova sozinho.

Falei no início que foi um ano difícil, pois somente consegui o vice campeonato no Torneio de Verão. No campeonato esperava mais de mim, mas tive problemas com o carro em Tarumã e como eu não participava das provas em Guaporé, o ano não foi muito bom.

As 12 Horas desse ano então, foi a pior das que disputei até o fim da minha carreira, pois foi a única que não terminei, a que apenas dei meia dúzia de voltas, como retardatário, e recolhemos o carro. A 1h30min da madrugada já estava voltando para casa.

No início desse ano o Paulinho me apresentou uma pessoa, que hoje é meu único amigo da equipe que tenho contato, chamado Beto Hass. Quando o Paulinho me apresentou, me disse que o pai do Beto, o Sr. Lauro Hass, tinha preparado os antigos DKW que corriam no circuito da Cavalhada. O Beto, sempre prestativo, queria fazer parte da equipe por gostar de corridas, e assim fizemos uma parceria que dura até os dias de hoje. Tornou-se responsável pela pintura do carro e ele, no final do ano, mudou a pintura do Speed 11, do amarelo com azul, para o layout e pintura que foi a azul com branco, que foi a sua última pintura.

Torneio de Verão - 1995: Meu sonho sempre foi disputar umas 12 Horas com chuva na parte noturna, pois alí, separava os pilotos, dos que achavam que são piloto. Nas 12 Horas nunca consegui, mas na primeira prova do Torneio de Verão daquele ano foi com uma chuva fraca, mas constante, deixando aquele "sabão".

Na primeira bateria terminei em segundo lugar. O vencedor foi o Carlos Castro, o melhor piloto da categoria, na minha opinião, e na da maioria dos pilotos da Speed. Fizemos o pit stop e pedi ao Beto que tentasse abrir mais meus paralamas dianteiros, pois os pneus estavam pegando nas curvas do Tala e na 9. Lá foi meu amigo, abaixo de chuva bater os paralamas, que ficaram melhor para a segunda bateria.

Larguei na segunda bateria e não sequei direito as sapatilhas e na primeira volta na curva do Tala, ao fazer o punta-taco, a sapatilha molhada, escorregou do pedal do freio e ficou somente o calcanhar no acelerador. O Speed 11 começou a rodar e eu tentando segurar, consegui em partes, ele não chegou a rodar mas também não indireitou. Fiquei com o carro atravessado no Tala, com o motor apagado, e os carros que vinham atrás iluminaram todo o meu carro por dentro. Eu me encolhi no canto oposto e esperei a qualquer momento alguém me acertar, mas lembro que o Andrézinho do Fusca 10, que vinha a seguir, parou para não me acertar. Tentei fazer o motor pegar no botão, mas nada. O carro ia de ré lentamente em direção a zona de escape, e como estava muito lento, eu só tinha uma cartada: tentar pegar no tranco e ajudando no botão, e assim ele pegou e fui embora.

Conforme a planilha do final da prova, somando as três baterias, cheguei em segundo lugar nessa prova, atrás do Danilo do Fusca 85.

Em uma outra etapa deste mesmo Torneio de Verão, no mês de Fevereiro, terminei a primeira bateria em segundo lugar novamente com o Carlos Castro em primeiro. Na largada da segunda bateria veio um carro protótipo lá do fim do grid e na curva 1 ele me deu uma fechada e para não bater desviei dele e o Speed 11 acabou rodando e, sem conseguir fazer ele pegar, fiquei parado na parte interna da curva 1, no lado do lago de Tarumã, naquela escuridão, onde eu só ouvia a batida forte de meu coração. Não acreditei. Vinha muito bem, larguei bem e agora estava alí parado. Imaginei a prova e todo o campeonato perdido. Fiquei sentando no carro sem acreditar, esperando a qualquer momento passar pela pista todo o grid. Assim esperei, mas notei que já era para o grid ter dado uma volta, mas nada deles virem, fiquei pensando o que podia ter havido. Me animei. Foi quando vi o Pace Car, puxando o grid, e o carro de socorro, com o Soldan, descendo e me perguntando: Brum, teu carro pega se te puxar? Claro que pega Soldan, claro que pega! Perguntei o que houve e ele me disse: capotou um Uno no Laço. Pega teu carro e volta pro grid, na mesma posição que largaste. A prova foi interrompida. Meu Deus, fui do inferno ao céu em uma volta! O carro pegou no tranco e lá me fui pro grid, com toda a esperança renovada.

A colocação desta prova não lembro, mas fui Vice Campeão da minha categoria nesse ano. O Campeão foi o Danilo do Fusca 85.

12 Horas 1995: no final do Torneio de Verão deste ano, o Paré me convidou para correr com ele as 12 Horas no final do ano. No início seria somente eu e o Paré no carro dele, pois eu não queria colocar o Speed 11 nas 12 Horas, pois sabia que esta prova acaba com os carros. No final corremos de trio: Ayrton Brum - Paré - André da Silva (do Fusca 68).

Foi uma prova para esquecer. Corremos com o meu motor no carro do Paré. Largamos em sétimo lugar e com 30 minutos de prova o Paré já estava em terceiro lugar, foi quando o motor quebrou na saída do Tala.

Colocamos o motor reserva que era do Paré, mas já tínhamos perdido muitas voltas. Fui o segundo a entrar no carro, mas resolvi juntar meu material e vir para casa."






Fonte das imagens: arquivo Ayrton Brum.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O quase primeiro pódio em 12 Horas

Dando continuidade à trajetória do amigo Ayrton Brum nas pistas, hoje ele nos conta a história de sua primeira 12 Horas de Tarumã, em 1994.

"Em Dezembro chegou a prova das 12 Horas de Tarumã. Como jogo Tênis, tive uma lesão na perna e estava com uma tala de gesso e de licença médica do serviço. Em casa
estava resmungando, pois não tinha corrido as 12 Horas de 93 e novamente estava sem grana para correr a de 94, e ainda com a perna engessada.

A prova teria início no sábado a meia-noite. Na sexta-feira à tardinha, recebo uma ligação do João Mascarello, meu antigo preparador, me perguntando: Brum, queres correr as 12 Horas???

Eu disse: Mascarello, vai pra pqp! Tu sabes que não consigo levantar a grana. E ele respondeu: Brunzinho, você não precisa entrar com nada, só com a pilotagem, pois estou com o carro pronto, iria correr o Giovane Schorn e o Ivan Mônaco com o Fusca 22, mas na noite passada arrombaram a empresa do Ivan e ele não está com a cabeça para correr. Já fizemos até a tomada de tempo e vão correr somente tu e o Giovane. Daí respondi: bom sendo assim, eu vou "muito sem vontade, fazer esse favor a vocês" e ainda disse ao Mascarello que, para não chegar de mão abanando, levaria dois pneus para ajudar naquele "sacrifício".

O Mascarello me disse que eu teria que ir urgente ao Autódromo fazer a minha inscrição e ver o banco do carro, pois o Giovane tinha 1,92 m de altura e eu apenas 1,69 m. Quebrei a tala de gesso e me fui rumo à minha primeira 12 Horas de Tarumã.

Mas o "sacana" sabia que o banco do carro era soldado e parafusado no assoalho do carro e que isso ele não iria mexer.

Coloquei meu nome na porta do Fusca 22 e sentei no banco para ele regular, foi aí que ele me disse: Brum, vai ter que te virar, o banco é soldado e parafusado. Testei apertando a embreagem no fundo e vi que conseguia, mas todo espichado, e ainda comentei: olha Mascarello, não sei como vai ser para o Giovane, mas para mim está certinho (a perna esquerda espichada no máximo e mais um pouco do corpo). Ele riu e disse: é, tô vendo...

O filho do Mascarello, um garotinho na época, tinha somente uma tarefa nessas 12 horas: colocar a almofadinha para eu pilotar e tirar quando o Giovane assumisse a pilotagem. Fizemos uma corrida perfeita, amanhecemos liderando a corrida na nossa categoria, mas às 09 hs da manhã a equipe errou na cronometragem e se perdeu no horário de chamar o carro para abastecer. Deu "pane seca" na pilotagem do Giovane e voltamos rebocados e caímos para último.

Recuperamos o que deu e terminamos a corrida em terceiro lugar. Subimos ao podium, eu todo orgulhoso. Foi quando o "Perna", lá da cabine dele, pelo auto falante disse: desculpe, errei. A dupla Giovane e Brum chegou em quarto lugar e não terceito. Favor descer do podium. Vi em poucos segundos sair voando meu troféu já na minha primeira 12 Horas.

Isso até não foi nada perto da "gozação" dos outros pilotos que me diziam: Brum, era engraçado ver teu carro por traz na curva do Tala. Tu sumias no banco na entrada da curva e só reaparecia quando colocavas a quarta marcha novamente...

Não sabiam eles que eu passei a prova toda, "me espichando" para trocar de marcha e ainda bem que era Tarumã que tinha que cambiar somente em duas curvas."


Abaixo alguns registros daquela prova.




Em breve a continuação.

Fonte das imagens: arquivo Ayrton Brum.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Pilotinho inexperiente

Hoje continuo com a trajetória do Ayrton Brum na Speed 1600, contada pelo próprio, que nos leva agora para 1994.

"Iniciei o ano mais confiante e já com minha auto estima em alta. Por problemas financeiros, fui procurar o Paulo Ferreira, conhecido como Paulinho, que foi Campeão com o Fusca 40 do Guto Furst, da equipe Parks em 1989 e se não me engano em 90 também, e tinha a oficina MC Serviços, na Av. Aparício Borges no. 35.

Ao procurar o Paulinho ele me disse: Brum, lembro de você com o Fusca 77, todo errado em 1989, eu já com a pole feita e você lá naquela oficina no sábado à noite, lutando para poder ir correr no domingo. Também lembro de você, naqueles anos que parou de correr, aqui na oficina, sentado no carro do Guto, sonhando que estava pilotando um carro de ponta. Pois vou preparar o teu carro, e de graça, pois tive muita pena de te ver naquele carro. Você somente paga a minha despesa no autódromo e em caso de eu ter que fazer motor ou caixa de câmbio, vou te cobrar a tabela da oficina, como se fosse um carro de rua.

Para vocês entenderem, o Paulinho foi meu PAI, meu AMIGO, meu PROFESSOR, e muito aprendi com ele, como ser humano, foi a pessoa que, depois do Renato que me ajudou no Fusca 77, a outra pessoa que me estendeu a mão no automobilismo.

Em Janeiro de 1994, mudei as corres do Speed 11, do branco, para as corres amarela, azul e verde que o Guto utilizou no Speed 40, quando o Paulinho preparava para ele. Era uma homenagem que fiz ao meu amigo e pai, que ficou emocionado quando viu o carro e a nova pintura.

Com o carro de pintura nova, fui fazer um treino em Fevereiro, um domingo, e na volta do autódromo, na faixa de Viamão, antes da RS-040, o Speed 11 caiu da carreta, arrebentou as correntes e ele deslizou pela parte de traz e como estava em ponto morto desceu da carreta e sai rolando pela faixa. Ao olhar pelo espelho interno do meu carro não vi mais ele. Ao olhar pelo retrovisor externo vejo o Speed 11, vindo rodando, já ao lado da carreta. Não queria acreditar que iria perder meu carro, novinho, pintura linda, e ele indo direto contra os carros que viam em sentido contrário.

Fiz a única coisa que me restava, dar sinal de luz para os carros que vinham em sentido contrário, acelerar e com a carreta segurar o Speed 11, e assim fiz. Quando o 11 encostou na carreta eu freiava de leve, a carreta prensada pelo carro e pelo Speed 11, começou a atravessar, eu soltava o freio, ela alinhava e eu novamente freiava de leve, assim fui segurando ele, já no acostamento ao contrário da estrada.

Desci, fui engatar o Speed 11, para recolocá-lo novamente na carreta, quando vi as pessoas dos carros que pararam no acostamento, começaram a bater palmas para mim. Foi a única vez que fui aplaudido em pé na minha vida, mas meu carro estava ali, apenas com o capô dianteiro furado pela alça da carreta que prendia as rampas.

Logo após a morte do Senna, fomos fazer a minha primeira prova do campeonato em Guaporé. Por mim eu não iria, pois as despesas com a viagem eram pesadas, mas o Paulinho me disse: Brum, eu pago as nossas despesas, depois quando receberes teu salário, você me paga. Vamos lá, estamos bem no campeonato e não podemos só fazer as provas de Tarumã.

Assim fomos numa madrugada fria de Junho e eu me borrando de medo da minha carreta, pois tinha medo que o Speed 11 caisse novamente.

Chegamos ao autódromo de madrugada, eram 2 horas da manhã, a cerração era demais, um frio, e o pilotinho aqui nunca tinha ido no inverno à Guaporé. Levou pouca roupa e nada de roupa de cama. Dormimos no box. Enfiamos a carreta com o Speed 11 no box, arrumamos as camas com papelão no chão frio. Como levei pouca roupa e nada para me cobrir na noite fria, vesti o macacão e dormi com ele. Mas o frio era terrível. Eu lembro que dormia e meu corpo tremia de frio. No meio da madrugada o Paulinho pegou um cobertor dele e me cobriu dizendo: piloto, se você não dormir bem, amanhã você não vai consegui pilotar, e zombou de mim...PILOTINHO INEXPERIENTE."

Abaixo alguns registros daquele ano, onde aparece a família, a equipe e o mecânico Paulinho,na segunda e terceira imagens, de bigode.






Fonte das imagens: arquivo Ayrton Brum.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Esse carro vai ser meu

Continuando com a história do Ayrton Brum nas pistas, hoje ele nos conta sobre seu retorno, no final de 1992.

"Com o anúncio na mão liguei para o João Silva em Montenegro, isso no final do mês de Outubro de 92. Ele me falou que estava liderando o campeonato com o Speed 11 e que dia 02 de Novembro teria uma prova em Tarumã e mais uma outra em Dezembro, também em Tarumã.

Dia dos Finados de 92, lá fui eu ao Tarumã e ao olhar o Fusca, já olhava com olhos de "ESSE CARRO VAI SER MEU", faceiro como uma criança, sentado no bando do carro.

Nessa prova o João andava disputando as primeiras posições e na Curva do Laço, levou uma "fechada" de dois carros, rodando e caindo para o fim do grid. Chegou ao box com a porta do piloto amassada e eu olhando o carro ainda falei a ele: "agora amassado" tens que baixar o preço.......e rimos juntos.

Na mesma semana fui até Montenegro e busquei meu "sonho".

Em Dezembro o João me liga e me diz: Brum, preciso do teu carro emprestado, pois tenho a última corrida e me faltam três pontos para sair Campeão. Te devolvo o Fusca como Campeão e com o número 1 de Campeão para correres o ano de 93 e te deixo um cheque com o valor do carro, caso aconteça alguma coisa com ele. De imediato respondi: MAS NEM PENSAR, não quero dinheiro nenhum, eu não quero é perder o meu carro, depois que eu vi o que fizeram contigo em Tarumã, imagina o que irão fazer com você e com meu carro na última prova!

Acho que foi a maior sacanagem que já fiz para alguém no automobilismo, pois o João pegou um outro carro emprestado, não conseguiu os três pontos, sofreu com o carro e ficou com o Vice Campeão.

Para o ano seguinte o João me indicou um preparador, o João Mascarello, de Viamão, que foi o meu primeiro preparador. Foi um ano de muito aprendizado, pois eu tinha certeza que agora sim eu tinha um carro, um grande preparador com nome nos Fuscas e muita experiência. Tudo agora era comigo. Tinha muito o que aprender e treinar. E aprender sozinho, pois eu tinha CIÚME de meu carro, e não deixava ninguém sentar o traseiro nele.

Na época o grid dos Fuscas era de 38 carros, chegando no ano de 95 a 42 carros.

Com muito treino na quinta corrida consegui meu primeiro troféu, que foi um décimo lugar, conquistado na última volta com uma ultrapassagem na Curva do Laço (o Fusca 35 desgarrou e eu o ultrapassei por dentro)".

Abaixo é possível ver o resultado da corrida na qual o Brum foi comprar o carro do João Silva. Nas imagens seguintes, aparece o carro com as cores originais. O preparador "Paulinho" Ferreira aparece numa delas, agachado, calibrando os pneus.





Fonte das imagens: arquivo Ayrton Brum.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Difícil começo

Hoje o Ayrton Brum nos traz a continuação da sua história no automobilismo, dando detalhes da montagem do seu primeiro Fusca de corrida, em 1989, as dificuldades enfrentadas e a necessidade de interromper seu sonho. Muito bacana.

"A montagem do 77 foi uma fase muito complicada, a mais dura e cansativa na minha carreira, pois a grana era muito curta, mas o sonho era muito longo.

O meu conhecimento de carro de Corrida era zero, entendia o básico de carro de rua, mas quanto a corridas, era menos que zero.

Embora sonhasse todos os dias com carros de corrida, cometi o erro de nunca procurar me informar e conviver com pessoas envolvidas com corrida. Eu era completamente desinformado em montagem de carro de carro de competição, apenas tinha era muita vontade de correr e achava que isso bastava.

O primeiro passo era comprar um carro. Encontrei uma Fusca de rua de um mecânico chamado Renato, que tinha uma pequena oficina na Av. Érico Veríssimo, quase esquina com a Ipiranga. O nome da oficina era Multi Serviços.

Com o Fusca comprado eu não tinha um carro de passeio para andar na rua, andava de ônibus para poder ir trabalhar, mas o mais importante para mim era ter meu carro de corrida e assim pegava o ônibus e ia procurar alguma oficina que arrumasse o meu carro.

Tinha uns amigos que rebocavam meu carro para levar de oficina em oficina, e "implorar" que preparasse meu carro para que eu pudesse realizar meu sonho, mas com um "pequeno detalhezinho": tinha de ser de graça, pois eu não tinha grana. Cansava de sair do serviço e ir nas oficinas e ao chegar lá, a decepção, o carro estava do mesmo jeito que deixava a dias dias atrás. Tristeza, decepção e raiva era o máximo que conseguia nessas oficinas.

Um dia lembrei do mecânico que me vendeu o carro e fui na oficina dele ver se ele "terminava" meu carro para que eu pudesse correr e ele concordou. Foi o primeiro que estendeu a mão para mim e não me enrolou, apenas me falou que não entendia nada de preparação para corrida. Lembro que comentei com ele: você entende de carro de rua, me serve, vamos lá. Combinamos de depois do expediente dele eu saia do meu serviço e ia na oficina dele e trabalhávamos até a meia noite. Comia um xisburguer, horrível, em pé, em um trailer que tinha na própria Érico Veríssimo. Levava um outro pro meu amigo e começávamos a "mexer" no carro, sempre com o regulamento preso na parede de madeira da oficina.

Muitas vezes um ia ler o regulamento e não entendia, chamava o outro e também não entendia, riamos e fazíamos da maneira que achávamos que era, e lembro que uma
vez ainda comentei com ele: Renato, vamos fazer como entendemos, ninguém é louco, tu achas que vão protestar meu carro e abrir o meu motor??? Assim conseguimos deixar o 77 mais ou menos parecido com carro de corrida. E lá fomos para a primeira corrida, no peito e cheio de orgulho.

Ao chegar, o pessoal olhava meio estranho pro meu carro, não sei se era porque meu carro era o único que tinha forração no teto, ou se era pela minha suspensão, completamente retinha, sem cambagem nenhuma nas rodas dianteiras e a traseira bem alta.

Eu não cheguei a ver, mas eu acho que quando passei na reta na primeira volta com chuva, todo mundo deve ter ido para a mureta ver como eu ia fazer a Curva 1. A minha sorte era que meu motor não empurrava nada, era um motor de rua, piorado.

No sábado, para tomada de tempo, chuva, dia escuro, perfeito para quem era piloto experiente. Não tem nada, vamos lá, eu nem sabia como era o ritual pra entrar na pista para tomada de tempo, não sabia se era por ordem de número do carro, ou inscrição. Resolvi seguir o carro que ia na minha frente e fui... Entrei na pista e a chuva caindo.

Nunca tinha andado na pista de Tarumã, pois o meu curso de pilotagem foi em Guaporé. A parte que se enxerga da arquibancada tudo bem, mas eu não entendia e não sabia como era a pista ali na Curva 9, pois nunca tinha visto ali pelo kartódromo. Esse foi meu primeiro contato com a pista de Tarumã.

Na segunda prova eu não fiz tomada de tempo no sábado, nem fomos para o autódromo, pois tinha coisas para fazer no carro.

Nessa época corria o "Guto Furst", com o Fusca 40 da Parks e quem preparava o carro era o Paulo Ferreira da Mecânica MC na Aparício Borges e o Guto morava na Av. Érico Veríssimo, a uma quadra da oficina onde eu o Renato trabalhávamos no 77.

O Paulinho Ferreira, anos depois, veio a preparar o Speed 11 e foi com quem obtive os melhores resultados e bons resultados também tive com meu outro preparador do Speed 11, que foi o João Mascarelo de Viamão. Esses foram meus dois únicos preparadores.

O Paulinho entrou na oficina umas 9 horas da noite, conversou com a gente, comentou que tinha feito a pole, deu umas dicas para nós e foi embora, dizendo que esperava nos ver no dia seguinte em Tarumã. No dia seguinte lá estava eu, chegando com o carro rebocado pelos amigos e perguntando quem era o último colocado e que eu iria largar atrás dele, pois não tinha feito tempo no sábado.

Assim foram três provas, com um carro completamente torto das porradas que levou na rua.

A minha esposa começo a me cobrar, que morávamos em um apartamento que não estava pago, e que se me acontecesse alguma coisa, ela não iria ficar bem.

Fui na garagem onde guardava o 77 e fiquei olhando para ele, e pensando...putz cara, minha esposa tem razão, vou ter que vender você, mas não cometerei o erro
de comprar um carro de rua todo ruim, vou comprar um carro já pronto, andando, de preferência de ponta.

Resolvi vender o Fusca, coloquei um cartaz no mural da FGA, pedi Cr$ 5.000,00, e pensei que não conseguiria vender por esse preço, um carro sem história no
automobilismo, mas coloquei lá. Em poucos dias apareceu um pessoal de Santa Cruz do Sul que queria para Arrancada, gostaram, e levaram o 77.

Senti como se estivesse vendendo meu próprio filho. Fechei o portão da garagem e não olhei para trás, não quis ver levarem meu filho, feito com tanto
carinho, mas ao mesmo tempo sabia que com ele não conseguiria resultados.

Em 1992 comprei minha casa, onde moro ainda hoje, e disse a minha esposa: pronto, aí está a casa que você queria, está paga, agora vou tratar de voltar a correr... Ela apenas comentou: meu Deus, vai começar tudo de novo... Eu disse: não, agora vai ser diferente, não cometerei os erros que cometi com o 77.

Passei longos dois anos e alguns meses sonhando novamente todos os dias com meu retorno às pistas, mas com uma mentalidade e conhecimento muito diferente.

Olhando os classificados, na parte de Fuscas, em Outubro de 1992, vejo o seguinte anúncio: VENDO FUSCA DE COMPETIÇÃO, SPEED 11, tratar com JOÃO SILVA. Meu Deus, era tudo o que queria encontrar no jornal".

Abaixo alguns registros daquelas três primeiras provas em 89.








Sobre as imagens acima ele ainda lembra de alguns detalhes, como a aquela em que ele está alinhado no grid, pronto para a primeira corrida. A luva foi comprada em uma loja de material esportivo, era de goleiro (!). O macacão foi feito por uma parente e tinha quase o mesmo peso do piloto. O único patrocínio era o da oficina do amigo Renato, a Multi Serviços. Brum ainda lembra do seu pensamento no momento daquela foto: sonho realizado aos 30 anos de idade...

Na foto em que mostra o painel do 77 ele lembra que o painel em que estavam o conta giros e o da pressão de óleo foi feito do fundo de uma lata de thinner, cortado na diagonal.

Na primeira foto em que ele aparece limpado o carro, aparece ao fundo o Fusca amarelo do "Guto Furst" e o seu preparador, o Paulinho Ferreira, que mais tarde veio a ser o preparador do Speed 11 do Brum. Sobre isso, ele nos traz mais detalhes.

"Ele foi meu preparador, meu pai, meu amigo. Quando ele foi preparar o meu Speed 11 ele me disse: Brum, vou te ajudar e preparar teu carro, pois tinha muita pena de você, pois via teu sofrimento com aquele Fusca 77, completamente errado. Várias vezes te vi aqui na oficina sentado no carro do Guto sonhando.

Depois que parei de correr, todos os anos eu ia em sua casa no dia 31 de Dezembro dar um abraço e um beijo na única pessoa que me ajudou no automobilismo.
Sempre que voltava a sonhar em pilotar, pensava no meu "Velho", que era como eu o chamava, para preparar meu carro novamente. E eu sentia que seus olhos brilhavam quando eu falava em voltar a pilotar.

Nesse ano de 2010, no dia 31 de Dezembro encontrei sua oficina fechada. Pensei que ele estava na praia. Retornei dia 5 de Janeiro para cumprir meu ritual de todos os anos e dar meu abraço e meu beijo no meu pai no automobilismo. Uma vizinha me falou que ele faleceu em Setembro de 2010".

Fonte das imagens: arquivo Ayrton Brum.

sábado, 7 de maio de 2011

O sonho de um garotinho de 7 anos de idade

O último Desafio trouxe uma imagem de uma prova que foi um marco na história do automobilismo gaúcho. Ela mostrava o grid de largada da primeira prova da então chamada Standard 1600, que depois seria chamada de Speed 1600, a categoria dos Fusquinhas, que teve início em meados de 1988 em Tarumã. Em destaque aparecia o #27 do piloto de Giruá, Licínio de Oliveira Neto que foi o pole e o vencedor daquela primeira prova.

Quem enviou o registro foi o piloto Ayrton Brum, que competiu na categoria entre 1989 e 1998. Ele mesmo fez as fotos, acompanhando toda a movimentação de perto, pois seu objetivo era competir na categoria. Ele lembra que acompanhou inclusive a vistoria técnica feita no carro do vencedor (Licínio), pois já queria entrar com seu carro sem problemas nas vistorias. Aproveito para publicar uma feita por mim, ao final da bateria daquela primeira prova. É a última desta sequência.





O Brum me enviou a história dele, contando como surgiu o sonho de pilotar e detalhes de seu primeiro contato com o automobilismo, na escola de pilotagem em 1987. É muito bacana e vale a pena a leitura. Acelera, Ayrton Brum!!!

"Nasci na cidade de Uruguaiana, logo após o natal de 1957, uma cidade do interior do RS, onde não há e nunca houve um autódromo ou qualquer tipo de corrida.

O máximo em relação a carros e competição que apareceu na cidade, na década de 60, eram os Fuscas da equipe "J. CARDOSO" que na época faziam demonstrações de Cavalo de Pau e andar com os carros em 2 rodas.

Nessa década de 60 eu ficava maravilhado olhando os jornais da época falando nas corridas de Mil Milhas e as tradicionais provas no Circuito da Cavalhada e Pedra Redonda, que eu nem imaginava que nos dias de hoje viria a morar justamente na zona sul da capital.

Já na década de 70, logo no início, ficava maravilhado com os carros de corrida, os quais hoje mato a saudade vendo as mesmas fotos em teu blog. Eram Simcas, Fuscas, Opalas e outros.

O dia em que o Pedro Carneiro Pereira faleceu eu ainda morava em Uruguaiana e na casa de minha avó escutava o jogo da dupla Grenal naquele Domingo.

Ouvi a notícia da morte daquele grande piloto e com uma mistura de tristeza, fiz um juramento a mim mesmo: um dia irei correr nesse tal Autódromo de Tarumã. Falei essa frase a mim mesmo e até hoje não sei se foi um juramento, um pedido, ou um conforto ao Pedro, e não tinha a mínima ideia de onde ficava Tarumã. Obs: a minha corrida de despedida, as 12 Horas de 1998, levou o nome de Pedro Carneiro Pereira. Esse troféu é muito especial para mim.

Os anos se passaram e todos os dias eu sonhava, literalmente, TODOS os dias eu imaginava como seria pilotar um carro de corrida.

A vida passou, vim morar em Porto Alegre, e o sonho cada vez mais me incomodando.

Sempre lendo matérias de automobilismo nos jornais, lembro que na década de 70 ou 80 o Cláudio Mueller estava com uma escolinha de pilotagem e lá fui eu me informar. Se não me engano, o escritório dele era na Correia Lima esquina com a José de Alencar. Mas o curso era muito caro para mim.

Continuei sempre acompanhando notícias de carros de corrida, e sempre esperando uma luz, um sinal, alguma coisa no jornal que me levasse a correr.

Em Junho de 1987 achei no jornal o que eu procurava há mais de 20 anos: a Escola de Pilotagem Interlagos viria à Guaporé dar um curso (caríssimo para minhas condições) de uma semana, no final de Agosto de 1987, mas era agora ou nunca. Juntei o dinheiro que pude e fui me inscrever. Lembro que foi em um escritório de uma pessoa na Rua Cipó. Tenho ainda o recibo de minha inscrição.

O Toninho de Souza, que era o organizador da F3 Sulamericana na época, era o Dono da Escola. Nesse curso vi a oportunidade que esperava desde os meus 7 anos de idade.

O curso de pilotagem seria ministrado na última semana de Agosto de 1987, em Guaporé, com as seguintes características:
- Quatro carros Gol, motor 1.6, com dois bancos de competição (aluno + instrutor);
- Aulas teóricas e práticas;
- Prova final do dia 30/08/87;
- Somente conseguiria aprovação quem obtivesse um tempo mínimo cronometrado;
- O certificado daria direito a encaminhar a carteira de piloto junto à FGA e CBA.

A aula teórica, dada em um dia, consistia dos seguintes módulos (no restaurante do Radiador):
- Regulamento FIA;
- Montagem do carro;
- Bandeiras;
- Marketing para buscar patrocínio;
- Dicas de pilotagem - Traçado, Punta-Taco, leitura de relógios, etc.

A nota mínima para aprovação era 7.

A aula prática acompanhado do instrutor seria dada em um dia. O instrutor ficava sentado ao lado com uma planilha (parecia auto escola) anotando tudo. Verificava se você fazia o Punta Taco, se ficava com o pé na embreagem ou a mão no câmbio.

As aulas práticas sozinho eram em dois dias. Os instrutores ficavam nas curvas avaliando.

Havia por fim uma prova prática cronometrada, com tempo mínimo a ser determinado.

Para baratear o custo com o Hotel Topo Gigio, a organização do curso reservou os apartamentos com dois alunos por quarto.

Eu fui, pela ansiedade de fazer o curso, o primeiro a chegar à Guaporé e a me instalar no hotel, pois cheguei com um dia de antecedência.

O segundo aluno a chegar foi o Luiz Afonso Schiafino, nos apresentamos, conversamos junto à janela do quarto e ele me falou que tinha ganho o curso por responder a uma rádio, algumas perguntas sobre a Fórmula 1. Brincando com ele, lembro que comentei: Pô cara, que sorte você teve, eu tive que pagar uma grana pelo curso.

Eu já estava preparado para esse curso há 20 anos. Levei meu capacete, minhas luvas, e ele me disse que não tinha trazido nada, pois não sabia que tinha que levar esse material. Eu disse que ele podia usar o meu capacete, que como eram quatro carros, enquanto um fazia a aula (usando o capacete) o outro ficava de fora batendo fotos.

Fizemos uma amizade muito boa, pois o sonho, era o mesmo. À noite estudávamos as bandeiras e toda a parte teórica do curso, pois teria a prova da parte teórica. Combinamos montar um carro para corrermos os dois juntos, ele venderia o Kart que ele tinha, para entrar com a parte dele.

O Luiz Afonso é um que aparece nas fotos de cabeça baixa, com uma jaqueta marrom.

Não tenho mais fotos dele, pois depois do acidente que ele sofreu, dei de presente todas as fotos do curso que tinha dele.

Fizemos o curso e a prova final foi no domingo, dia 30 de Agosto de 1987. No retorno do autódromo ofereci carona de volta a Porto Alegre para o Luiz Afonso.

Alguns alunos não conseguiram aprovação e na alegria e euforia de ter sido aprovado no curso, fui ligar para minha esposa que tinha ficado em Farroupilha e avisei ao Luiz Afonso que teria que passar em Farroupilha para pegar ela e ele me disse que tudo bem, iria comigo.

Enquanto ligava para minha esposa ele consegui carona no Chevette com motor de Opala, que estava com alguns dos instrutores. Na correria para pegar a carona, ele se despediu de mim e me disse que iria no Chevette, pois eles desceriam direto até Porto Alegre, e que me ligaria para combinarmos a montagem do nosso carro.

Um outro aluno, o Waldemar Max, também pediu para ir de carona no carro, mas o dono do carro não queria levar quatro pessoas e o Waldemar ficou de fora.

De volta a Porto Alegre, na segunda-feira logo pela manhã, abro o jornal Zero Hora, e vejo na capa a notícia "Tragédia com Alunos do Curso de Pilotagem na Volta de Guaporé". No jornal aparecia foto de um corpo coberto na beira da estrada, era do instrutor que se chamava Ricardo Lima, ele aparece nas fotos de abrigo azul ao lado do carro da escola e me falaram que ele era um dos donos da Sulcolor. Eu fui o último aluno que ele passou seu conhecimento, pois fiquei na última turma dele, e fui o último aluno que andou com ele no carro, depois nós andamos sem instrutor. Ele tinha deixado a empresa para ensinar o que mais gostava.

No acidente, o Luiz Afonso foi levado para o Hospital em coma irreversível. O instrutor que dirigia o Chevette sobreviveu. Encontrei ele em Tarumã, anos depois. O amigo Luiz Afonso ainda resistiu sete dias e faleceu dia 7 de Setembro de 87.

Passado uns seis meses, me procuram em casa, a irmã e a noiva do Luiz Afonso. Não sei como sabiam que eu tinha feito o curso com ele, e nem como descobriram meu endereço. Selecionei todas as fotos que tinha do meu amigo e dei de presente aos familiares dele.

Alguns alunos do curso: Ayrton Brum, Licínio de Oliveira Neto (conhecido como Giruá), o preparador do Licínio, o Waldemar Max (correu comigo as 12 Horas de 1998 e escapou do acidente por não ter lugar no carro), José Bergamini. Os outros alunos não encontrei mais, e nem tive conhecimento se chegaram a pilotar".






O Ayrton Brum vai continuar a nos contar sua história no automobilismo. Aguardem.

Fonte das imagens: arquivo Ayrton Brum e arquivo pessoal.