quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sonho realizado

Mônaco sempre foi um sonho meio platônico. Pela distância, pelo custo, mas sempre esteve inserido naquele discurso clássico: quem sabe um dia...

No ano passado havia feito uma tentativa de assistir a prova, planejando as férias com a patroa para o final de Maio, quando a prova é habitualmente realizada. Acabou passando longe, pois em função do trabalho tivemos de mudar os planos e... pois é, não seria daquela vez.

Daí, uma daquelas coisas que a gente nunca acha que vai acontecer com a gente aconteceu. Em função do trabalho, tive de vir para o velho continente, onde ainda estou. Quando fui oficialmente informado nem me dei conta da data. Aí a patroa, sabendo do meu velho sonho, me comentou: já pensou se o GP de Mônaco é no período que tu vais estar por lá? Eu pensei: bem capaz. Seria muita coincidência... Daí, dias depois, quando fui dar uma olhada no calendário, nem acreditei: sim, eu estaria por aqui no período da prova! Bom, e agora?

Até a saída de Porto Alegre ainda não tinha bem certeza se conseguiria ir, por isso que no último Desafio aqui do blog eu disse que seria um desafio para mim, pois tinha de ver como me deslocar cerca de 500 km ida e volta (estou no norte da Itália), onde ficar, ingresso e tudo o mais, isso é claro, sem atrapalhar o trabalho, que é o objetivo da minha vinda aqui.

Durante as noites eu ficava aqui no hotel, navegando no www atrás de todas as informações, montando o plano para a viagem. A inexperiência tem o seu preço e depois vi que poderia ter feito algumas coisas de outra forma, mas vá lá. O ingresso, por exemplo: no site oficial da F1 já estavam esgotados desde o início da semana passada, mas havia disponível em outro, por um preço um pouco maior, cerca de 10%. Comprei mesmo assim, mas ao chegar lá, no sábado, vi que para o setor onde fiquei, Rocher, podia-se comprar na hora, por um preço melhor.

Bom, algumas coisas, pelo contrário, deram muito certo, como alugar um carro, ficar num albergue numa cidade francesa que fica ao lado, chamada Menton, e ir de trem até Monte-Carlo, que leva apenas 15 a 20 minutos. Se eu fosse e voltasse de trem desde aqui na Itália, não conseguiria voltar a tempo para o trabalho na segunda pela manhã.

O tal do setor Rocher era meio incógnita. Tinha assistido a uns vídeos no www e até que a vista não era das piores, mas o problema ficava por conta das "instalações" que eram num barranco, isso mesmo, com pedras, terra, árvores e tudo o mais. No sábado, quando passei lá para retirar o meu ingresso no final da tarde, fui até a entrada do Rocher e perguntei quando seria aberto no domingo. Me disseram que seria às 6 da manhã, mas que já havia bastante gente lá acampada desde os treinos (!). Acampada? Essa eu queria ver...

Bom, como disse, no sábado passei rápido por lá para pegar o ingresso, ver qual seria o caminho a fazer no domingo desde o trem, mas tinha de voltar rápido para Menton, pois só encontrei estacionamento na rua e este era limitado a poucas horas, além de custar os olhos da cara. Estacionar o carro em Mônaco nem pensar...

Feito isso, fui procurar o albergue e daí descobri que junto dele havia um grande camping, no topo de uma montanha com uma vista bem bacana. Posso dizer tranquilamente que a maioria daquele povo todo que lá estava iria no GP. O legal era ver os carros dos caras. Mercedes, Audi, BMW, até Porsche, todos com barraquinhas. No albergue, muita gente também que iria na corrida. A vantagem de ficar lá, além do custo baixo seria o lugar para deixar o carro até a volta da prova.

Nem preciso dizer como estava feliz da vida, ansioso, prestes a realizar o sonho, coisa e tal. Esse foi o meu segundo GP. O primeiro foi aquele inesquecível em Interlagos, 91. Puxa, há 20 anos! Cacilda, mas como estou ficando velho...

Se consegui dormir, foram poucas horas. Às 5 da manhã já estava de pé. Até descer a montanha (20 minutos), pegar o trem, coisa e tal, cheguei no setor às 6:30. Era uma rua que cortava uma montanha e tanto para cima, quanto para baixo, ficavam as, como dizer, hmmm, os espaços para a turma se acomodar. Foi engraçado, pois eu nunca tinha visto uma barraca montada num lugar como aquele. Vi muita gente dormindo nos barrancos. Não sei como eles conseguiram passar a noite lá.

A vista parecia bem legal, até melhor do que eu imaginava. Seguindo o ditado de que Deus ajuda quem cedo madruga, consegui um lugar na sombra, sentado, bem tranquilo.







Como o lugar obviamente não era numerado, tive de ficar alí praticamente até o final da prova, pois qualquer espaço vazio era disputado a tapa por quem chegava e não parava de chegar gente por lá.

Com gente na volta foi praticamente impossível não fazer amizades. Era gente de tudo quanto é lugar. Ao meu lado, logo depois que me instalei chegou um casal de mais ou menos uns 60 anos, vindos da Inglaterra. O Tony e a Sue assistiam a prova pela terceira vez, sempre naquele lugar. Estavam bem mais preparados que eu, com umas almofadas, muita comida e apetrechos para passar o dia todo alí. O legal é que eles gostavam mesmo das corridas, conhecem quase todas as pistas da Inglaterra, sendo que a preferida é Silverstone. Quando disse que era brasileiro, lembraram do Senna. Ficaram surpresos quando eu disse estar torcendo para o Hamilton e o Alonso e não o Massa. Do outro lado, havia um grupo de indianos, que passou boa parte do tempo comendo umas batatinhas apimentadas. Todos com a camisa da Ferrari.


Quase 10 da manhã e de uma rua que fica num subsolo começam a sair os Porsches da Supercup. Foram os primeiros roncos do dia. Corrida bacana e comportada, já que não houve maiores problemas. Já a prova da Fórmula Renault World Series, disputada na sequência, foi bem mais movimentada. Um fato interessante e que fiquei feliz ao perceber, foi a presença do Cesar Ramos, piloto gaúcho, participando da prova. Pensei que antes dele só o Leonel havia corrido alí em 1973, mas depois, numa rápida pesquisa, vi que o Marcello Ventre havia corrido de Fórmula 3 em 1992 e 93.




Terminadas as preliminares, a ansiedade só aumentando, começaram os preparativos para o GP. Os pilotos começaram a sair por uma passarela que passava por cima da curva Rascasse e a turma fazendo uma recepção bem calorosa para todos. Os mais aplaudidos foram Button, Hamilton, Vettel e Alonso. Dos não pilotos, o Flávio Briatore e o Richard Branson também foram muito aplaudidos. Mas nem Vettel, Alonso, Branson, nem ninguém foi mais ovacionado e levou a loucura a torcida do que elas: as "grid girls".





Uma das coisas bacanas do lugarzinho que arranjei é que bem na minha frente havia um enorme telão onde se podia acompanhar a transmissão da prova, com a vantagem de não ter de ouvir o Galvão. Por falar em narração, ela era feita em quatro línguas: francês, inglês, italiano e alemão. Um de cada vez, é claro.

E foi um de cada vez que os carros começaram a passar alí pertinho e se dirigir para o grid. Nem acreditava no que estava vendo. A volta de apresentação já foi ensurdecedora. Quando a largada foi dada então...

E a narração refletiu bem o que rolou na pista. Era um tal de Ulalá para um lado, Mamma mia para outro e assim foi aquela prova. Não preciso dizer que quase saí surdo de lá. O eco produzido em meio aqueles prédios é inacreditável. Me chamou a atenção o barulho feito pelos carros da Lotus e da Marussia. Cada troca de marchas na entrada da "reta" parecia um tiro de espingarda 12. De arrepiar. Já os motores Mercedes (McLaren, Mercedes e Force India) faziam um barulho engraçado na reaceleração, pareciam uma buzina de caminhão com defeito, não sei explicar bem...




Outra coisa legal foi ver os carros abrindo a asa. O trecho útil iniciava bem em frente onde estava. Notem da foto acima a linha branca cruzando a pista e uma plaquinha escrito "DRS". A foto abaixo mostra o carro do Rosberg na frente, já com a asa aberta e o Schumacher logo atrás ainda com ela fechada.


Bom, a maioria deve ter visto a prova, como foi disputada e tal. A batida do Petrov chegou a dar uma desanimada, pois a turma pensou que a prova seria encerrada, mas quando ouvimos que não, a comemoração foi geral, afinal seria muito frustante acabar daquele jeito.




O pega nas voltas finais foi de arrepiar. Todo mundo de pé, e os três alí, a centimetros uns dos outros. Inesquecível. Impossível não se emocionar.

Ouvir o tema do champagne alí, todo aquele povo feliz da vida, independente do resultado, foi muito bacana. Tinhamos acabado de testemunhar uma grande prova mas é claro que aquele gosto de quero mais também já era percebido.

Mas, apesar de querer esperar a poeira baixar e caminhar pela pista, eu precisava voltar para "casa" e rápido, mas nem imaginava onde iria me meter. As fotos abaixo dão uma ideia do que peguei pela frente. Todo aquele povo também tinha de ir embora e como a forma mais utilizada para entrar e sair de lá é o trem, aí já viram. Bom, foi mais de uma hora até passar pelo "brete" e pegar o trem. Que sufoco.



Bom, valeu todo o esforço, madrugar, ficar espremido, o cansaço, tudo. As vezes a gente não se dá conta que os sonhos estão mais próximos do que se imagina. E quando eles se realizam é impossível não ficar com um sorriso no rosto por muito e muito tempo...


Valeu, turma!

29 comentários:

Rui Amaral Jr disse...

Belo relato Leandro, gostei demais!
Meu amigo Teleco - Luiz Antonio Siqueira Veiga -também correu lá em 73 de F.3 e o Paulo Gomes se não me engano também.

Um abração e bom trabalho por aí, sua viagem já está ganha!

Pauo Rotta disse...

Fiquei feliz com o relato do amigo. Certamente com um pouco de inveja. Abracos.

Anônimo disse...

Feliz em ver que o Blog do Sanco está se internacionalizando.
Parabéns, amigo. Bom trabalho e curta bastante.
Caranguejo

Roberto Giordani. disse...

Sanco : Mas que relato sensacional..... Para um estreante de F1 em Monte Carlo a tua performance foi fantástica: nos colocaste ao teu lado na narrativa.
Vamos aguardar o teu retorno, caro "babysauro" para que relates outros detalhes.
E te prepara para o Old Man Racing Day que os Jurássicos farão com as iniciativas do Zuio e do Fleck no próximo dia 25 no Velopark. Já temos 20 inscrições de pilotos Jurássicos para andarem nos Veloce do Velopark. Tens visto a relação dos ex-pilotos Jurássicos que alinharão na primeira bateria? Jamais uma bateria ou corrida foi possível reunir tantos astros do passado juntos na mesma prova.......será de arrepiar!!!
Um grande abraço.
Giordani.

Giovanni Sanco disse...

Que beleza!
Certamente merecido.
Forte abraço, boa volta.

Francis Henrique Trennepohl disse...

Que maravilha de relato, Leandro!
Não escondo que a inveja é grande, mas muito maior do que ela é a alegria em ver a tua felicidade com este sonho realizado.
Abraços empoeirados

Anônimo disse...

Buenas!

Cara! já não és um simples mortal. Teu lugar é no Olimpo.
Teu sorrizo já disse tudo.
Abraço Forte.

Pedrão - SMO

Brum disse...

Amigo.

Belo relato.
Admiro homens que tem sonhos, pois eles são o "turbo" que impulsionam nossa vida.

E o sonho é o nome que damos aos nossos objetivos que sabemos que vamos demorar um pouco mais para atingi-lo.

abraço

Rodrigo Elesbão disse...

Muito legal Sanco, tu fez o que muitos de nós gostaríamos de fazer, por isso é um privilegiado, e com certeza merecedor pois esse belo trabalho que tu realiza no blog, faz muita gente feliz
Grande abraço

Neusa disse...

Filho Leandro!!!

Me emocionei com tua narrativa para tornar um sonho em realidade,e pelo teu desprendimento de sair atraz...para chegar onde chegou...passando somente por cima de tuas dificuldades,e fazendo amigos ao longo do caminho.
Esse sonho não foi só seu,foi nosso também.

Penso eu...que quando nós temos sonhos e queremos que ele se materealize,se faz um trassadao,da uma aceleradinha...diminui um pouco...olha para os dois lados ...e é agora vamos que vamos......e isso você faz com muita propiedade tanto na vida,no trabalho e nas pistas quando surgem oportunidades,ai o sorrisso é inevitavél.

Muito obrigado.

José e Neusa .

Cia do automobilismo e rally disse...

Sanco,parabéns,por realizar mais esse sonho!!!!!!!!que venham mais né amigo!!!!!abraçao

Cesar Cardoso 45 Racing disse...

Amigo SANCO Parabéns pela béla e sonhadora viagem ,ja estamos sentindo tua falta agui no blog .Abração !!!

ENIO WERMUTH disse...

FICA DIFICIL COMENTAR ALGO SOBRE TEU SONHO REALIZADO, POIS LI E REFLETI OS COMENTARIOS ANTERIORES AO MEU, MAS ENDOSSO E FICO MUITO FELIZ EM FAZER PARTE DO TEU BLOG E LOGICAMENTE DE TUA AMIZADE ESTOU NA TORCIDA PARA QUE TEUS SONHOS SE TORNEM REALIDADE, POIS COM ISSO FIZEMOS PARTE DOS TEUS RELATOS E FOTOS....ABRAÇOS E CONTINUE ASSIM

ENIO WERMUTH disse...

FICA DIFICIL COMENTAR ALGO SOBRE TEU SONHO REALIZADO, POIS LI E REFLETI OS COMENTARIOS ANTERIORES AO MEU, MAS ENDOSSO E FICO MUITO FELIZ EM FAZER PARTE DO TEU BLOG E LOGICAMENTE DE TUA AMIZADE ESTOU NA TORCIDA PARA QUE TEUS SONHOS SE TORNEM REALIDADE, POIS COM ISSO FIZEMOS PARTE DOS TEUS RELATOS E FOTOS....ABRAÇOS E CONTINUE ASSIM

Tohmé disse...

Graaande Sanco.
Adorei o relato e principalmente a realização desse seu sonho, que é o de muitos.
Você merece, cara...

Anônimo disse...

Parabéns Sanco! Você merece. Que muitos outros Grandes Prêmios possam vir na tua vitoriosa trajetória.

Grande Abraço,
Guilherme Hoerlle.

luizborgmann disse...

Alô Leandro,
Muito bacana tua reportagem, é um privilégio ter entrado nesse templo sagrado do automobilismo. Parabéns.
luiz borgmann

Carlos Giacomello disse...

Tu disse que foi à trabalho. Quer trocar de emprego comigo?

Heitor disse...

Maravilha Sanco. Bacana mesmo. Fiquei com inveja, no bom sentido é claro.

Jao disse...

Meus sinceros parabéns e sou obrigado a falar que é impossível não sentir uma ponta de inveja ehehehhe. E também parabéns por realizar os teus sonhos.

Grande Abraço

roger disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
roger disse...

Grande Sanco e o Pellouse Rocher!
Sonhos são para serem perseguidos...e aos vencedores, realizá-los!
Parabéns à sua Mamãe e Papai que o fizeram. Você movimenta o automobilismo gaúcho com nunca dantes!
Parabéns!

Anônimo disse...

Grande Sanco
Em Mônaco conseguiste achar um lugar parecido com o Tala Larga?
Abç
Júlio

Claudio Ceregatti disse...

Amigo Sanco!
Fico arrepiado só de pensar na tua paixão, manifestada com todas as letras lá em Passo Fundo - depoimento histórico! - em meio à música dos motores nesse lugar mágico e também histórico!
Realizastes um sonho, o que não tem preço.
Embora essa F1 asséptica de hoje não seja sombra do que foi, nesse mesmo lugar, corrida de carro é corrida de carro, pombas!
Tenha a certeza que curtiu o verdaeiro clima do que nós, mais velhinhos, vivenciamos muitas e muitas vezes na vida.
Nada de camarotes chiliquentos, celebridades da hora, efeitos especiais.
O negócio é ir de barranco mesmo, bunda úmida, vento na cara, sol a pino e esse cenário estonteante.
Cada pedaço desse esfalto tem histórias mil gravadas, os homens e mitos que por aí aceleraram vibram em cada curva, cada pedacinho desse chão.
Fico extasiado com essa tua aventura, que certamente contarás a teus netos, inebriado ainda, muitos e muitos anos depois, com o que viu, ouviu, cheirou e sentiu.
Sanco, Sanco...
Te abraço daqui, de longe e tão emocionado como tu.
Sei bem, sei exatamente o que sentistes.
"Perdido no velho mundo, aproveitando cada minuto dessa vida como se fosse o último".
Te amo, cara.
Vá ser feliz, tu mereces.

Carlos Belleza disse...

Meu caro amigo
Passei fora uns dias, somente agora vi tudo isto.
Espetacular!!! Parabens!
Na volta, certamente nos contarás muito mais.
Grande abraço.
Catô

vitorio soder disse...

Que legal sanco....
é mais que legal cara...
abraço..

projetos e obras de arquitetura avançada disse...

ISSO AÍ, SANCO!
PARABENS PELA EMPREITADA! São essas coisas que tornam a vida boa..

Maurano disse...

Grande Sanco !

Parabéns pela odisséia !
...agora falta colocar os tênis numa redoma com a inscrição :
" estes pés pisaram um solo sagrado do automobilísmo "...rsrsrs

Abração meu amigo !

Maurano

Antonio Seabra disse...

Sanco,

Só agora estou lendo o teu ralto.
Parabéns pela aventura, que eu imagino que tenha sido maravilhosa.
Também por acaso estive lá, 2 semanas antes da prova. chegeui a dar 2 voltas pelo traçado, em meio ao tansito pesado, o que só foi possivel porque já estavam montando os guard rails, arquibancadas etc.
Ora, se já foi incrivel estar lá neste cenario que descrevi, posso imaginar o que voce sentiu, assistindo os motores roncarem !!!
Mais uma vez meus parabéns.

Grande Abraço

Antonio Seabra