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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Tudo o que é bom dura pouco

Demorei para finalizar meu relato sobre o Blog Speed Day. Os blogs parceiros já estão a mil em outros temas, mas mesmo assim, para fins de registro, queria encerrar meus escritos sobre aquele final de semana.

Acordei no Domingo em Passo Fundo anestesiado pelas emoções de Guaporé. No café da manhã no hotel todos pareciam crianças no primeiro dia de férias. Cada um com uma marca daquele dia fantástico. O Vicente apareceu com os braços queimados do sol, dizendo que estava fantasiado de Jornal dos Esportes. Claro que eu não entendi nada, mas ele explicou que no Rio havia o tal jornal que tinha uma parte rosa, a capa e contracapa, e outra branca, assim como ele, um sarro. Foi ali que descobri que o Regi Nat Rock havia sido "mordido" pelo Kaimann, no sábado, quando ele estava empurrando a barata nos boxes. Ele mostrava orgulhoso a "mordida" no calcanhar. O Jan Balder era só alegria por ter pilotado novamente aquele carro que foi seu há 35 anos. E assim eram todos ali presentes. Cada um com uma lembrança, uma história daquele sábado mágico.

Check-out no hotel, não sem antes aproveitar o papo para pegar o autógrafo do Jan e mostrar a ele a foto que naquele exato momento estava indo ao ar como o Desafio daquela semana aqui do blog, aquela foto em que ele está em Tarumã, de capacete, ao lado do Fusca. Ele contou detalhes de sua participação, do carro, quanta coisa legal.

A programação daquele último dia incluia duas visitas que em muito me surpreenderam. O Paulo Trevisan passou no hotel por volta das 08:45 e seguimos uns 10 minutos de carro até chegar na garagem da Família Azambuja. Olhando de fora eu não tinha noção do que veria. Fomos recebidos pelo Sr. Wilson e depois pelo Roberson Azambuja e ao entrar pela porta, um sem número de carros apareceram na nossa frente, de várias décadas, de várias marcas e com muita história em cada um deles.


Carros que eu nunca tinha visto, como VW SP1, Uirapuru, Democrata, Simca Jangada entre tantos outros, todos alí, brilhando, prontos para uma volta. Bem que gostaríamos, mas seria pouco provável. Uma coleção incrível e o mais incrível é que eu não sabia da sua existência, alí, tão perto. Uma rápida olhada na oficina e num outro depósito, onde estão mais outros inúmeros carros prontos para serem restaurados. Já falta espaço para tantos carros. Era engraçado quando eu fazia uma pergunta, sobre algum exemplar. Rapidamente já havia uns três ou quatro blogueiros ajudando. Fiz uma sobre as diferenças entre o SP1 e o SP2 e o Ceregatti, o Eric e o Belair deram as respostas na hora. Mais rápido que o Google. Essa turma sabe muito. Era uma seleção de craques. Observamos que haviam vários exemplares do Simca Jangada. O Roberson explicou que no início dos anos 60, quando houve o grande "boom" do trigo na região, ter uma Simca Jangada era sinônimo de status, pois era um dos carros mais caros daquela época. Quantas histórias.






O tempo foi pouco para apreciar tudo. Alí precisavamos de um dia inteiro, no mínimo, mas o Blog Speed Day já estava por terminar e ainda havia mais uma última parada antes da despedida de Passo Fundo: um churrasco na Fazenda dos Graeff, onde repousam verdadeiras raridades. A turma dos Graeff é conhecida por sua coleção de Opalas, mas vários outros modelos Ford e Chevrolet fazem parte do acervo dessa incrível família. Quando da chegada do Sr. Oscar Graeff, o mesmo foi praticamente cercado para que fosse possível ouvir suas histórias e explicações. Demais.




O churrasco de ovelha estava perfeito. A churrasqueira, pilotada com muita habilidade pelo Piti e o Luis Fernando Graeff, estava em sua capacidade máxima. O acompanhamento era cuca, que o pessoal do sudeste chamava de panetone. Daí, no meio daquela festa toda, um pirralho começa a me puxar e dizer alguma coisa. Era o João, filho do Francis com apenas 2 anos e 4 meses. Ele dizia: gol, gol, um gol e apontava para a rua. Eu pensei: esse piá deve estar querendo uma bola, algo assim. Daí, surpreso, ou melhor, completamente abobado, entendi que ele estava me mostrando um VW GOL!!!!!!! PARA TUDO!!! Oh, Francis, olha o que o teu piá está dizendo! O papai, todo orgulhoso me disse apenas: tu não viste nada. Pergunta para ele qual o carro que ele mais gosta. E aí, guri, qual o carro que tu mais gosta: OPALA, respondeu o fedelho. E o Francis: agora diz para ele qual o que a mamãe mais gosta: MAVERICK. Virei fã do guri na hora.


Assim eu percebia a dimensão dessa paixão em comum entre todos que ali estavam. Do Sr. Oscar ao pequeno João. Pessoas de diferentes idades, locais, sotaques, costumes. Pessoas que nunca haviam se visto antes, mas cultivam o gosto pelos automóveis, pelas corridas, pela velocidade, o cheiro da gasolina.

O Blog Speed Day, no fim das contas foi isso. Emoção, conhecimento, adrenalina, velocidade, história, amizade, alegria, abnegação, felicidade.


Sou um privilegiado por ter feito parte desse grupo, por ter sentado e acelerado nas baratas e por conhecer um monte de gente especial. Valeu, Saloma, Jan e Teresa, Vicente e Denise, Eric, Regi (cuidado com os Kaimanns soltos por aí), Vitão, Rodrigo, Francis e família da Poeira (Gol, Gol, Gol!!!), Cerega, Guilherme, Anselmo, Aun, João Cesar, Lucca, Seabra, Joca (parabéns pelos 200k!), Zullino, Belair (feliz aniver atrasado!), ao Sr. Wilson e ao Roberson Azambuja, à Família Graeff, Oscar, Piti, Luis Fernando, Dudu (esqueci o nome das senhoras Graeff), ao Larri, o Mosquetta, o Erlon, o Leonardo, ao Arlindo e Luciano Marx e ao Mestre Marcos, meca das baratas e ao demais mecas do Museu.

Mais alguém? Sim, um agradecimento maior ao incrível Paulo Trevisan, um apaixonado que não mediu esforços para receber a turma no Museu, deixar todos à vontade e ainda por cima não teve medo de emprestar seus "brinquedos" para um grupo de malucos. O Paulo foi um dos maiores incentivadores desse espaço no início, lá em Julho de 2007 e tenho a sorte de tê-lo como um amigo. Ele tem todo o meu respeito e admiração.

Nunca mais esquecerei dele falando no box em Guaporé, enquanto eu ainda me adaptava ao JQ Reynard: vai, Sanco! Vai, vai, vai...


Tudo o que é bom dura pouco? Pode ser, mas na mente daqueles que passaram por essa experiência, isso jamais vai acabar. Ainda me vejo acelerando as baratas e o sorriso no rosto de todos por terem feito o mesmo.

Valeu!

Fonte das imagens: arquivo pessoal e Leonardo Panisson.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Engasgado na própria alegria

Bandeira vermelha em Guaporé, mais ou menos meio dia. O Comandante Paulo Trevisan interrompe as atividades para a turma reabastecer o estômago. Nesse momento, o Jan Balder dá uma entrevista ao próprio Paulo, contando como é a experiência de guiar novamente aquele Divisão 4 que foi seu em 1975. Jan é só felicidade e um cara muito legal. Receptivo, gosta de um papo e de contar suas histórias. Paulo valorizou muito aquele momento. Foi muito bonito. Na sequência o Joaquim, pessoa de extremo conhecimento em se tratando de automobilismo e com uma grande experiência de vida, falou ao Paulo. O Joca é um exemplo de blogueiro que de "comentarista" passou a ter o seu próprio espaço. Mais do que justo, pois o que esse cara sabe não é brincadeira.


Almoço na companhia dos amigos. O papo vai longe. Na mesa estava a turma com a camisa do Speed Channel. O tiozinho do restaurante pergunta se eles são do Curva do S. O Guilherme que veio de Minas (e acelerou também) confirma. O tiozinho fica muito faceiro e diz que assinou a TV a cabo só por causa do canal. Legal aquele encontro. Aquela turma significava muito para o tiozinho e sua família. O que estava acontecendo no autódromo significava muito para todos nós.

Voltamos para o autódromo e os carros já estavam na pista novamente. Na chegada vejo o Joca se divertindo no Espron. Algumas baixas pela manhã diminuíram o número de relíquias. O Ômega teve problemas com o radiador ou as mangueiras, se não estou enganado. O Polar, ainda em fase de acerto, deu poucas voltas com o Jan pela manhã e logo encostou. Se eu pudesse andar nos demais seria ótimo, mas o meu divertimento aquela altura era assistir aos amigos entrando e saindo dos carros como se estivessem cruzando o limite com uma outra dimensão. Era um negócio maluco e o Paulo incansável, dando orientação para todos, com o Marcos e sua turma de fé sempre no apoio.

A adrenalina já tinha baixado, o tempo tinha passado, já estávamos no meio da tarde. A ansiedade há muito tinha ficado para trás. Ali só havia paz, alegria, bons fluidos. Seria ótimo poder fazer isso mais vezes, penso.

Daí o amigo Belair chega para mim e pergunta: "Sanco, cê já andou no Aldee?" Eu não tinha andado e rapidamente me acomodei dentro da barata, com a ajuda do próprio Belair nas instruções. Ligo a geral, bomba #1, ignição. O motor pega fácil, vamos ver o câmbio, VW, então esse vai ser legal.


Naquele momento eu sentava no carro que - sem exagero - foi o responsável pelo retorno dos construtores de protótipos que há tempos estavam inativos no país. Me lembro que quando abri a revista Auto Esporte #300 que trazia a cobertura das Mil Milhas de 1990 e ví a foto daquele carro, não tinha ideia do que estava por vir. O Almir Donato, construtor do carro, participou daquela Mil Milhas e acabou vencendo na categoria até 1600 cc, chegando em quinto na classificação geral. Logo depois veio a ideia de fazer uma evolução do modelo, já com estrutura tubular. O carrinho continuava obtendo sucesso em competições de Endurance e em cerca de quatro anos já tinha conquistado o país. Me lembro também das 12 Horas de Tarumã de 1994, quando dois Aldee foram trazidos de São Paulo. A comprovação do sucesso era evidente. Um deles foi o pole position, o outro venceu a corrida. Os Aldee haviam caído no gosto de pilotos, equipes e público. As provas de longa duração voltavam a incluir uma categoria para Protótipos/ Força Livre, outros construtores começavam a tirar da gaveta projetos há muito guardados. No Rio Grande do Sul, destaque para o protótipo construído por Paulo Barreto (atualmente pertencendo ao acervo do Museu), vencedor de várias provas, o MC Tubarão começava a tomar forma. Mais tarde o MCR entrava nas pistas para concorrer com a nova geração dos Aldee, os Spyders. Hoje são inúmeros protótipos competindo e mais outros tantos sendo construídos. O automobilismo brasileiro mudou, tudo isso graças a esse carro que eu começava a acelerar.

Até então eu havia guiado o JQ Reynard, o Fitti-Vê e o Kaimann F-Fiat. Esse era o primeiro carro fechado. O capacete encosta no teto, me acomodo um pouco mais para baixo. O ronco do motor reverbera dentro do habitáculo, o conta giros tem a luz que avisa quando estamos no limite, fixado em 5000 rpm. Pneus slick da Michelin. São bem largos. O carro é bem estável, mesmo com a traseira leve. Motor e tração estão na dianteira. Primeira volta lenta, mas não demora para perceber que a brincadeira será das boas. O câmbio VW sempre foi o meu preferido, testo a terceira, quarta e quinta para ver se entra como espero. Perfeito. A adrenalina volta rápido, a empolgação idem. Esse carro é uma delícia.

Curva da Vitória, a luz do giro acende, estamos em 5000 rpm, a quarta entra rápido, como esperado, no meio da reta, a luz acena de novo, vamos em quarta, sem exigir muito para ver como é o freio. É duro. Lembro do kart e das primeiras recomendações que o Sr. Moretti me dava: "não freia dobrando!!!" Mas estou rápido e tenho de continuar com o pé no pedal ainda duro na entrada da curva. Hmmm, o carro parece melhor que o JQ Reynard nas curvas. Claro que é só impressão, pois o monoposto foi construído exclusivamente para competição. Esse aqui é um Gol modificado. Mas que trabalho bem feito do Almir! Já na segunda volta, a curva 2 passa rápido e a retomada é um tiro, olha só, ainda não tinha passado na zebra de fora, uau!!! Já fiz amizade com o câmbio, com o freio, com as zebras, está tudo em casa. Saída da curva do túnel e mais uma lembrança de Guaporé: na primeira vez que vim aqui, em Novembro de 1990, assisti a três provas de uma mesma programação, a Fórmula Ford regional, a Fórmula 3 Sulamericana (o Barrichello retornava da Europa e correu aquela) e o Gaúcho de Marcas, que fez uma prova noturna. Me lembro direitinho que havia alguns carros com quatro e outros com cinco marchas. Os com quarta (longa) cambiavam no meio da retinha antes do Radiador. Os com quinta, colocavam a quarta logo na saída da zebra e a quinta já na tangência do Radiador. Da posição que eu estava eu conseguia ver exatamente os movimentos dos pilotos dentro dos carros. Era um barato. Agora era eu que estava alí. Não havia ninguém do lado de fora - ainda bem - e eu tentei fazer o mesmo, bem rápido. Saída da zebra, luz do giro, quarta, esse motor é uma bala, luz de novo e lá vai a quinta, e... não, TERCEIRA!!!!!! Putz, que cagada. Olho no espelho, ninguém atrás como testemunha. Passo lento pela reta do box, aguardando a placa dizendo alguma coisa tipo BRAÇO DURO, MÃO-DE-PAU (lembrei do meu amigo Lambe-Lambe), mas tudo estava em ordem. Vamos com mais cuidado dessa vez. Ainda não foi agora que enfiei a quinta na reta e o motor 2.0 já começa a perder a paciência comigo. Frenagem forte, a curva 2 é feita rápido e a zebra de fora é visitada novamente. Esse negócio está ficando sério. Ai ai ai...

Eu não estava ali para testar limites. Ninguém estava. O objetivo era diversão, praticar a história do automobilismo ao lado de pessoas que, sem esperar nada em troca, se dedicam a isso, mas o motor, mesmo em quinta - que entrou direitinho - gritava alto na entrada do Radiador e eu pensando: será que dá para fazer flat? Por algumas voltas eu me fiz essa pergunta. A velocidade era alta, esse carro deve chegar fácil nos 190, 200 km/h no final do retão. Era irresistível, mas uma rápida aliviada no acelerador na entrada da curva me deixou mais seguro. Mesmo assim o contorno é rápido e a freada é forte para entrar no S. As freadas ficaram mais fortes a cada volta. No final da reta, mesmo em quinta marcha, a luz do giro já vinha acesa. Os braços indicavam que aquela experiência não era mais brincadeira. O carro está muito bem acertado, ele poderia facilmente participar das provas da Endurance. Que coisa de louco! Essa é a última volta. Que pena... Acho que encerro aqui a minha participação dentro da pista. As nuvens escuras já estão sobre Guaporé. Já dá para ver uns pingos caindo.

Chego no box realizado e ao descer do carro, o Paulo pede que eu dê um depoimento ao Speed Channel que nos acompanhou o dia todo. O Mosquetta, um gente boa que começou filmando casamentos e agora é O CARA das filmagens do esporte a motor aqui no RS, me diz para falar meu nome e o nome do blog. Foi difícil até dizer meu próprio nome. Eu estava meio que engasgado na própria alegria. Ele perguntou o que significava aquele encontro e aí eu começei a falar.


Quando a gente está emocionado, fala bobagem, exagera, mas não tinha como não ser assim. Lembrei de quando eu era um piá e das corridas daquela época e de como as lembranças mais remotas da minha vida se confundem com os carros, os pilotos, as corridas. Quando é que eu iria imaginar que poderia voltar no tempo e ver uma baratinha daquelas andando comigo ao voltante? Nem em sonho, meu amigo. Nem em sonho.

A chuva vem cumprimentar a todos. Não havia ninguém sem um grande sorriso no rosto. O grupo se reune para uma foto. Continuava chovendo, mas ninguém se importava. O Paulo ganha um merecido e longo aplauso por tudo o que ele faz em prol dessa paixão em comum de todos nós. Voltamos para Passo Fundo, mas antes fui fazer uma visita que em todas as vezes que estive em Guaporé adiei. A gente sempre saia do autódromo cansado, querendo voltar logo e a visita ao Cristo Redentor era sempre adiada. Mas dessa vez, não teve desculpa. O Anselmo me acompanhou. Lá do alto é possível ver a cidade toda. Um agradecimento por tudo que vivemos nesse final de semana é o mínimo que posso fazer. A gente volta conversando, não acreditando no que tinhamos feito. Se desse, a gente não saia mais do autódromo.




Encerravam-se ali as atividades do sábado, mas o domingo ainda nos reservava mais surpresas. Conto isso em breve.

Fonte das imagens: arquivo pessoal e Francis Trennepohl.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Embrulha esse para levar, por favor.

Entrar e sair do Fitti-Vê foi um exercício de contorcionismo. Cockpit estreito, tive de cuidar para não bater em nada. Já pensaram quebrar alguma coisa naquela relíquia? O carro foi construído em 1966 e pilotado pelo Emerson no ano seguinte. Estava diante do único exemplar ainda vivo do Fitti-Vê. Passei a conhecer e acompanhar mais sobre esse carro e a categoria no site do Mário Estivalet, um expert no assunto, aqui de São Leopoldo. Quando se percebe as formas da barata, os equipamentos utilizados para sua construção, uma certa revolta vem à mente: por que não temos mais uma categoria escola no país? Uma rápida pesquisa dias depois no www e vejo várias categorias de FVê ainda em atividade pelo mundo. Será que um dia teremos novamente uma categoria assim? Um passarinho me contou e acho que teremos sim. O que vocês sabem sobre isso Cerega, Zullino, Lucca, etc?

Pergunto pro Paulo onde está o cinto e ele diz que não tem (!). Uma rápida arranhada na primeira, solto a embreagem rápido para não forçá-la, giro alto e lá vamos nós de novo. Câmbio suave, suspensão e motor idem. Uma belezinha. É claro que a carga emocional é menor, afinal o batismo já tinha acontecido antes e também eu conhecia pouco sobre os Fórmula Vê, ao contrário de uma dezena de experts que passaram o dia falando e andando naquele carrinho. Mesmo assim, aproveito o momento raro, que acaba passando rápido. O Paulo disse para não deixar o motor morrer na entrada do box, chego acelerando para manter o giro alto. Vejo o Tio Zullino com seu capacete vintage e óculos especiais - para enxergar os instrumentos, como disse o Vicente - já pronto para entrar e acelerar. Rápida troca de "pilotos" (na verdade o Zullino pilota mesmo, na Classic em SP), e o Fitti-Vê estava novamente em ação. E o Paulo sempre dizendo "VAI, VAI, VAI!!!"




Um breve descanso. Se o dia terminasse ali eu já estava mais do que satisfeito. A movimentação era intensa. Aquilo parecia festa de confraternização da turma que fez um bolão e acertou na mega sena - se é que isso existe, claro. Mas acho que mesmo na turma da mega, deve haver muita inveja, discórdia, pois sempre tem um que apostou uma grana a mais que o outro, a ganância aflora, dane-se a amizade. O que vimos em Guaporé foi um grande companheirismo. Todos faziam questão de ajudar os demais naquilo que pudessem. Parou um carro, o novo piloto é mais "gordinho"? Já tinham uns três sobre a barata para ajustar o cinto, regular espelhos, alcançar equipamentos de segurança, enquanto os outros iam fazendo fotos e eternizando aqueles simples mortais entrando e saindo maravilhados daqueles carros que mantém viva a história do automobilismo do Brasil de antigamente. Encontrei outros amigos, o Mosquetta, o Erlon e o Arlindo e Luciano Marx. Fui dividir a minha alegria com eles. Os Marx levaram o Escort a convite do Paulo e deram algumas voltas por lá. O Mosquetta estava filmando para o programa do Speed Channel que irá ao ar em breve. O Erlon acabou fazendo fotos bem legais.

Entrou o Fórmula Fiat, carro que me deixou muito feliz ao vê-lo no caminhão em Passo Fundo. Dias antes do evento, o Paulo mandou uma lista com as baratas que estariam à disposição e esta não figurava entre elas. A felicidade se explica: o primeiro ano da Fórmula Fiat no Brasil foi em 1981, quando a VW tirou o patrocínio das categorias de monopostos e dos Passats. A Fiat, que fazia um baita sucesso nas pistas - com a pancadaria entre os 147s - decidiu apoiar os monopostos e assim, os chassis que estavam parados receberam a motorização italiana. Eu lembro dessas provas e o Kaimann, chassi que estava lá em Guaporé, era o meu preferido, por suas linhas agressivas. O chassi de propriedade do Paulo é um 1974 em perfeito estado de conservação. Entro no carro e a posição é super confortável. Muito espaço lateral e para os pés, que inclui ainda um descanso para o esquerdo. Quando me dou conta o Ceregatti está fazendo várias fotos desse momento. Ele percebe a minha alegria. O Ceregatti estava em alfa, era sem dúvida o mais brincalhão entre todos. Estar junto dessa turma foi incrível.




O motor não pega. O Marcos faz de tudo. Cara esforçado, competente, atencioso com todos. Bom vê-lo a mil de novo. Descobri que ele acompanha o Paulo há 18 anos, desde o tempo em que o Paulo corria no Gaúcho de Fórmula Ford. Eram oito carros precisando de atenção quase que o tempo todo e era raro algum ficar estacionado por muito tempo. Tentamos mais uma vez, o motor roncou alto para não apagar mais. A posição de guiar é ótima. A melhor até então. Poderia ficar horas ali curtindo. Uma esticada forte na saída do box (piloto de box, como disse o Mosquetta) e já noto a dianteira meio solta. Não é tão estável quando o JQ Reynard, mas o câmbio é melhor. Mesmo assim, é possível acelerar bastante e se divertir de novo. Mais algumas voltas, o motor meio embrulhado, mas na entrada da reta ele vem cheio, uma delícia. Nas reduções o motor pipoca. Como é legal ouvir isso de dentro do carro. Já me perdi nas voltas. Não tem ninguém na mureta acenando, acho que é a última. Vou devagar, aproveitando cada segundo. Se desse, eu levava esse pra casa.


Em breve a experiência na última barata.

Fonte das imagens: João César, arquivo pessoal (Valeu, Comendador!) e Erlon Radl.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

19 anos depois

Não tinha mais volta. Esperei muito por aquele momento e parece que na hora H deu um bloqueio, eu querendo me certificar que tudo estava certo, mas o negócio era ir para frente, trepidando uma barbaridade. Aqui tem um vídeo daquele momento, feito pelo João César. Depois de sair da parte de trás do box, o asfalto melhora, pensei. Melhorou, mas a trepidação continuava. Levanta o giro, alguém deve ter gritado ou fui eu mesmo. Daí voltei no tempo, mais precisamente há 19 anos, em Tarumã, quando acelerei pela primeira vez o meu kart, um Mini 87 motor Riomar V4. O carro era outro, a pista também, mas a sensação era a mesma. Tudo continuava vibrando, mas vamos com calma.

Saída do box, fim da reta, vamos ver se o freio funciona. Beleza, meu pé 43 bate numa parte do chassi, então tenho que parar de acelerar um pouco antes. Olha a curva 1, bem inclinada, caramba. Uma rápida acelerada e já estou na 2, pegando o sol forte bem no rosto. Seguindo em frente, passo por sobre o túnel onde há um desnível dos grandes e uns reparos feitos com concreto eu acho. Treme tudo. Melhor não passar alí na próxima. Outra curva bem inclinada e mais fechada que a 1. Entro na reta que leva à curva do Radiador, onde assisti pela primeira vez uma prova aqui em 1990. Como é bonito esse lugar. Esticando a terceira marcha um pouquinho, sinto dificuldades de colocar a quarta, o Radiador se aproxima. Puxa, pensei que fosse bem mais inclinada, mas aqui tem de ter cuidado, pois não se vê a zebra na saída dela. O carro embala e a primeira perna do S já está na minha frente. Freio, acelero e a empolgação aumentando. Segunda perna, acelerador no fundo e um baita susto. A traseira dá uma escapada! Pneus frios, meu amigo, vai com calma. Última curva, cheia de folhas das árvores pelo chão. Melhor fazer bem por dentro. A saída da curva mostra as últimas posições do grid. Chegamos na reta, ainda lento, reconhecendo tudo, embora o motor segue dizendo "VAI NO DA DIREITA, MEU FILHO!". Uma espiada na mureta, nenhum ar de reprovação do Paulo, um rápido aceno para uma foto e o pé decidiu assumir os trabalhos. Quarta, lomba abaixo e o motor gritando "QUINTA, POR FAVOR". Calma de novo, vamos ver como funciona o freio no embalo. Freio duro, terceira de novo e ops, segura, segura. A barata colada no chão, mas uma acelerada a mais e a traseira começa a dar o ar da graça.



A empolgação já tinha dado lugar à tranquilidade. Impressionante. Estava me sentindo em casa. Foram tantas vindas à Guaporé, por tantos anos que o traçado não foi nenhuma surpresa. Ao longo da segunda volta fui identificando várias fotos e histórias publicadas no blog nesses quase três anos. Na curva 1 voou o Maverick do Tróglio. Aqui o "Bocão" e o "Toninho" travaram uma grande disputa nos Passats, na curva que homenageia o Caetano Antinolfi. Nessa outra curva o pessoal vinha pendurado. Aqui tinha uma casa de madeira que ficava bem próxima da pista. No S os Fiats se encaixotavam na freada, aqui o Nique encheu a traseira do Uno do Ícaro com seu Chevette em 86, na última curva lembro de ter vibrado quando ví o Rogério Pretto liderando também com um Chevette a primeira volta das 12 Horas de 92 com os Opalas babando na cola dele. Alí parou o F2 do Pradinho, depois daquela estupidez em 81. Quantas histórias esse lugar tem. E como é bom estar aqui, nesse carro que vi correr em Tarumã, quando foi pole e acabou em segundo lugar há quase 21 anos. Estou ficando velho...

Terceira volta. Na saída da última curva o motor limpa, beleza, quarta, estica, quinta entrando com dificuldade, pé no fundo, cinto bem apertado, lá vem a curva, tudo vibrando, cadê a placa, só tem a dos 50, segura, segura, o pneu já tá quente, o motor pipoca, maravilha, o bicho contorna barbaridade, mantém o traçado, aceita os erros de um amador. A retomada te joga contra o banco. Isso aqui está muito bom. Alguém me belisca, por favor! Ops...Nas curvas sinto uma embrulhada, marcha para baixo para levantar o giro. Depois do Túnel, alguma coisa não está legal, o carro vai parando, parando e parou, logo depois do Radiador. O que foi que eu fiz???...

Bati o arranque de novo, o motor virava, mas não pegava. Melhor aguardar o resgate. Enquanto isso a turma ia passando. Lá vem o Fitti-Vê, o Aldee, o Ômega, o Kaimann, o KG Dacon. Vrummmmmmmmmm.......Acho que os primeiros foram o Joca, Zullino, Saloma, Francis e o Vicente. Todos passando, aproveitando cada metro da pista, curtindo aquele dia histórico. Eu já estava feliz demais. A turma passava lotada e eu ficava cuidando a tangência para entrar no S, o stop acendendo, o barulho das baratas. Depois de uns minutos chegou a Ranger e os guris do Paulo. Tenta de novo e nada. Voltei rebocado, justo quando o carro, a pista e eu já não nos víamos mais como estranhos. Acontece.

Ao chegar no box, os guris investigaram o que aconteceu. Acabaram trocando a ignição e o motor pegou novamente. Incrível como eles conseguem botar o carro de novo na pista tão rápido. O Paulo tem um time e tanto.

Encerrava alí o meu batismo no Blog Speed Day. Ao descer do carro eu nem lembro o que fiz, para que lado fui, com quem falei. A alegria era tanta que a razão fora completamente dominada pela emoção. Emoção boa, leve. Estava curtindo aquele momento quando ouço uma voz novamente dizendo: "SANCO, TU VAIS NO FITTI-VÊ. O LUCCA ESTÁ DEMORANDO. VAI, VAI, VAI!!!!!" Era o Paulo, com sua planilha, regendo seus carros e "pilotos" com a precisão e a firmeza de um grande maestro.

Não tinhamos tempo a perder. E lá fui eu de novo...
Em breve a continuação.

Fonte das imagens: Erlon Radl (na foto do #11 na pista é o Eric. Vai essa mesmo, enquanto as minhas, feitas pelo Leonardo não chegam), arquivo pessoal (valeu, Anselmo!) e vídeo do João César (valeu, João!).

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Insônia

O Blog Speed Day foi um evento para um público pequeno, mas de grandes dimensões e muitas emoções. Tudo começou na sexta, com a chegada do grande grupo vindo da região de São Paulo e Rio de Janeiro. De lá vieram o Saloma, Jan e Tereza Balder, Vicente e Denise Miranda, Ceregatti, Eric, Regi Nat Rock, Vitão, Rodrigo, Lucca, Seabra, Mestre Joca, Zullino e Belair. O Guilherme veio de Minas. De Floripa desceu a Família Poeira na Veia, Francis, Aglaís e os pequenos Gabriel e João e daqui do RS estavam o João César, Rafael, o Anselmo e eu. O Leonardo - fotógrafo de Passo Fundo - também acompanhou todo o evento.

Após a chegada em Passo Fundo, a turma seguiu para o Museu do Automobilismo Brasileiro. Cheguei meio atrasado. Foram quatro intermináveis horas de carro de Porto Alegre até o paraíso. Lá encontrei a turma - sendo guiada pelo incansável Paulo Trevisan - no meio da visita e fui obrigado a interromper a conversa para finalmente dar um abraço em vários expoentes da blogosfera. Depois de quase três anos "blogando" com Saloma, Joca, Francis, Cerega, Vicente, Jan, etc, pude finalmente ultrapassar o limite virtual e compartilhar momentos de alegria com todos esses apaixonados pelas carreras como todos que por aqui passam. Esse para mim foi o primeiro momento marcante do Blog Speed Day.


Enquanto isso, no pátio, as carangas estavam sendo colocadas nos caminhões para seguir no sábado pela manhã para Guaporé. As oito relíquias enchiam os olhos de quem as via. Mas tudo aquilo não fazia muito sentido. Parecia que iriam apenas seguir para uma exposição. "Será que realmente são para acelerar?" Eu me perguntava e respondia: sim. SIM!!! Depois de mais de um mês do convite do Paulo, se aproximava o grande momento.

Abaixo dois lances engraçados. O Francis tentando se encaixar no banco de um kart e o Ceregatti tomando um mate. Na foto não aparece, mas ele ficava o tempo todo botando a mão na bomba... Isso não se faz, Cerega. Esse cara era só alegria o tempo todo.



O entusiasmo do Paulo ao falar sobre seus carros é notável e incansável. A parada sobre o Fórmula Júnior foi recheada de histórias.


A sexta encerrou com um jantar com todos presentes. Depois, no hotel, foi difícil dormir. Na verdade, as últimas quatro noites foram igualmente de muita expectativa. "Será que o tempo vai estar bom? A pista vai estar molhada? E os carros vão estar nos trinques? E eu vou fazer alguma cagada?"

Chegamos em Guaporé no sábado às 09:00. O céu estava perfeito. Limpo e claro. Melhor impossível. O meca Marcos, braço direito do Paulo, tinha saído antes com sua turma e quando chegamos nos boxes os carros já estavam todos prontos para entrarem na pista.

Imediatamente, quando ainda estava reconhecendo o terreno, ouço o Paulo com aquela sua objetividade tradicional: "SANCO, TU VAIS NESSE" e apontou para o Fórmula Ford #11. Caramba, já? Então, lá vamos nós. "Anselmo, pega a câmera!" Só deu tempo de entrar no cockpit, conhecer os comandos, enquanto o Marcos dava uns goles no carburador e o Zullino, o Regi e o Erik ajudavam com o cinto de segurança. "Bem apertado, por favor". Perguntei ao Paulo sobre qual giro usar, pois tinha entendido - não sei porquê - que não deveríamos passar de 3000 rpm. "Está liberado, aceleres como quiser!" Tudo certo, o motor pegou e o Paulo dizendo "VAI, VAI, VAI!". Tinha de levantar o giro para não apagar. OK, não fiz feio quando todos estavam olhando para aquela barata que um dia foi do Rubens Barrichello.




E fui...

Em breve a continuação.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

12 Horas de Tarumã - Contando os dias

Hoje tem o Encontro dos Opaleiros lá no Tarumã, além é claro, dos treinos livres das 12 Horas. A pole-position já foi definida ontem. O MCR #46 vai largar na frente.

A ordem de largada não importa muito. A única vantagem de se largar no pelotão da frente é a probabilidade reduzida de se enroscar na largada com outro carro. Ontem estava revendo o vídeo que fiz da largada do ano passado e é impressionante como todo mundo consegue se encaixar no meio dos outros carros. Toques ocorrem, é claro. No vídeo o toque de um Escort e um Corsa. O da frente teve de freiar para não bater em um carro e o de trás não conseguiu parar a tempo. E lá se foram os faróis auxiliares. Logo na largada...

Me lembro de um ano, meados dos anos 90 em que estava atento ao posicionamento de largada do Escort azul do "Chico Bala". Ele fazia um trio com o "Toni" Martins e o Serge Buchieser, se bem me lembro. O carro era um foguete, acho que era preparado pelo Ricardo lá da RRM, mas a equipe não tinha participado da tomada de tempos e acabou largando em último. 49 carros tinham sido anunciados como inscritos, mas na última hora mais dois fizeram a inscrição, resultando num dos maiores grids já vistos na história da prova. Não havia espaço para todos os carros no tradicional grid (oblíquo). O jeito foi colocá-los dentro da pista mesmo. Eu estava na tela de dentro dos boxes, como sempre com os cronômetros na mão, aguardando a largada. Por muito tempo o procedimento de largada era feito com os carros desligados. Cada equipe disponibilizava outro piloto que ficava encostado no muro dos boxes até que fosse dado o sinal. Depois eles corriam em direção aos carros, ligavam a chave geral e então os carros partiam. Isso causava alguns problemas, pois como todo mundo sabe, ligar um carro de corrida não é das tarefas mais simples e com isso era muito comum vários carros ficarem parados na largada o que aumentava o risco de acidentes quando do fechamento da primeira volta. O procedimento adotado posteriormente continuava contando com a participação do segundo piloto, porém o carro já estava ligado e assim cada piloto tinha de retirar um selo que ficava colado em cada carro e depois entregar para a direção da prova.

Não lembro exatamente qual foi o procedimento daquele ano, mas também isso não importa. O que me marcou muito naquela largada foi o desempenho do "Chico" na primeira volta. Largando da 51ª posição ele passou na reta em 9º!!! Imaginem superar 42 carros em uma primeira volta que durava cerca de 1min20s!!! O "Chico" faz falta nas nossas pistas. Grande bota.


Bom, aproveitando que os motores estão esquentando, alguém sabe que encrencas eram essas que correram em 1998? Resposta amanhã.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

12 Horas de Tarumã - Contando os dias

Como escreví ontem, 1992 marcou a estréia do meu tio nas 12 Horas. Eu não tinha muita noção do que era ficar as 12 horas ajudando a equipe, mas não pensei duas vezes antes de fazer a minha mochila e pegar a estrada.

Naquele ano o "Paulista" tinha feito a estréia no Gaúcho de Marcas e o Chevette dele ainda carecia de mais desenvolvimento e a decisão mais acertada foi fazer parceria em algum outro carro. Surgiu a oportunidade de fechar um trio com o Wagner dos Santos e o Januário Cavalheiro no Chevette #55, pilotos com bastante experiência em provas de longa duração, pois vinham da categoria Regional de Turismo que tinha suas corridas disputadas em no mínimo 300 Km.

Distribuídas as tarefas de cada integrante da equipe, fiquei responsável pela cronometragem. A infra-estrutura na mureta dos boxes era digna de Fórmula 1. Dos anos 60, é claro. Eu tinha dois cronometros na mão, uma prancheta, uma caneta e um guarda-sol. Nem banco havia. Mas para mim já estava bom demais, afinal estava tendo a chance de acompanhar de dentro dos boxes a prova mais aguardada do ano do calendário local.

A função exigia atenção e com os dados que colhia transformava em informações para a equipe. As paradas de box iam transcorrendo normalmente, a equipe não enfrentou muitos problemas durante aquela prova. O tempo foi passando, o dia nascendo e aí começaram os "meus" problemas.

Eu estava exausto. Tinha me alimentado durante a noite - cortesia da esposa do Januário - mas o sono foi chegando e como o sol lá em Guaporé nasce na direção da última curva, justo aquela na qual é necessário manter os olhos atentos, foi difícil resistir e acabei cochilando mesmo em pé. Não por muito tempo, mas por muitas vezes. Numa das "sonecas" fui repentinamente acordado pelo guarda-sol que havia se soltado do chão em função de um vento forte e saiu em disparada pela frente dos boxes. Eu estava completamente tonto e não conseguia nem esboçar uma reação. A cena foi patética, mas depois de alguns segundos a ficha caiu e conseguí prestar socorro ao guarda-sol rebelde.

É claro que durante esse período o sistema de cronometragem ficou fora do ar, mas nada que comprometesse a performance da equipe. Após um rápido café forte e uma visita ao banheiro para jogar uma água no rosto o sistema estava reestabelecido e permaneceu assim até o final da prova.

Ao final daquela 12 Horas meu tio estava cumprindo o seu turno de pilotagem e quando fomos recebê-lo no parque fechado o Wagner saiu no meio de todo mundo gritando Saiam da frente! Saiam da frente porque ele tá sem freio!!! O freio do Chevette tinha acabado durante a última hora e o Paulista conseguiu fechar a prova reduzindo o ritmo da tocada e utilizando o câmbio para freiar. Ele foi chegando no parque fechado bem lento e teve de ser segurado no braço por toda a equipe para não causar problemas para ninguém.

Foi o meu batismo nas 12 Horas e serviu de experiência para as provas dos anos que se seguiram.

Abaixo segue uma imagem do Chevette #55, porém em 1993 novamente em Tarumã.

Fonte da imagem: Jornal Zero Hora

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

12 Horas de Tarumã - Contando os dias

Em 1992 as 12 Horas foram transferidas para o autódromo de Guaporé, já que Tarumã estava passando por reformas. Como era de se esperar o número de equipes inscritas ficou muito abaixo do que habitualmente se via em Tarumã. Apenas 19 carros largaram. Me lembro que havia mais um ou dois Opalas, mas não sei por qual motivo, eles acabaram não largando. Essa foi a primeira vez que meu tio corria as 12 e eu estava lá, ajudando no que podia.


Independente do lado que se está, seja dentro da pista, nos boxes, ou mesmo junto ao público, a largada das 12 é um momento de muita tensão. A noite, as inúmeras luzes dos carros e a quantidade de pessoas que ficam nos boxes, tendo em vista que é necessário ter uma equipe grande de pessoas para resistir à exaustiva maratona, acabam criando um clima de muita expectativa. Quando a largada é dada e os cronometros disparados, os giros dos motores e os batimentos cardíacos são colocados à prova e a injeção de combustível e adrenalina vão no limite.


E foi sob esse clima que aconteceu a largada daquela 12 Horas lá em Guaporé. Diferente do que vinha acontecendo em Tarumã, a largada foi dada com os carros alinhados 2 - 2. Na primeira fila estavam dois Opalas e em terceiro o Chevette #46 da dupla Rogério Pretto/Luciano Mottin.


O ronco dos motores foi ensurdecedor, já que eu estava na mureta e a mesma fica muito próxima e no mesmo nível da pista. Os 19 carros desceram a reta trocando posições e não se conseguia ver nada além daquele "clarão" criado pelos faróis dos carros.


Me lembro da expectativa de todos que estavam na mureta em ver a entrada dos carros na reta para completar a primeira volta, todos querendo garantir um lugar que oferecesse uma visão do que estava por surgir.


Eis então que presenciei um dos momentos mais incríveis das 12 Horas dos quais tenho lembrança: o Chevette #46, que era conduzido na largada pelo Rogério Pretto aparece na entrada da reta escapando de traseira - como ele bem gostava de "tocar" aquele carro - liderando a primeira volta, na frente dos dois Opalões que vinham babando atrás do "pequeno" Chevette. Alguns gritavam Incrível! Olhem lá! outros só gritavam, outros comemoravam, parecia que alguém tinha marcado um gol. Era a vitória de David contra Golias. Pelo menos na primeira volta...


É claro que o momento de glória do Chevette durou pouco. Ao final do retão ele já tinha sido superado pelos Opalas, mas já tinha deixado a sua marca e não fez feio. Conseguiu terminar a prova na quinta posição e terceiro na categoria. A vitória ficou com o Opala #5 do trio Carlinhos de Andrade/Paulo Bergamaschi/Victor Steyer.

A imagem abaixo mostra o Opala vencedor e o valente Chevette #46 durante disputa das 12 Horas de 1992.



Fonte da imagem: Jornal Pit Stop

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

12 Horas de Tarumã - Contando os dias

A primeira 12 Horas que assistí foi em 1988. Fui com a minha família. Ficamos na reta dos boxes e juro que tentei ficar acordado a prova inteira, mas fui vencido pelo sono lá pelas 4 da manhã.

Me lembro que na preliminar teve uma prova da Standard 1600, os velhos Fuscas, que naquele ano ainda não participavam da prova principal. Se bem me lembro eles entraram em 1990. Na corrida, feita no final da tarde, houve uma capotagem do Fusca #99 na saída da curva 9. O carro ficou com as rodas para cima, bem no meio da pista. Já estava escurecendo e era possível ver, mesmo da arquibancada, a iluminação dos instrumentos no painel dos carros.

Assistir à largada da primeira 12 Horas foi um momento incrível. O grid tinha uns 39 carros, entre os da categoria Regional de Turismo e do Gaúcho de Opalas. Apesar da maior potência, os Opalas não foram muito bem e ao final o melhor colocado ficou apenas na 4ª posição. Me lembro que lá pelas 07:00 uma forte neblina baixou no autódromo. O diretor da prova foi até a linha de chegada e ficou algumas voltas alí fazendo sinais com as mãos para os pilotos acenderem os faróis.

Naquela época não havia o carro de resgate e me lembro também dos vários carros quebrados que ficaram abandonados ao longo da pista. Ao final a vitória do Escort #11 do trio João Campos/Egon Herzfeldt/Walter Soldan (imagem abaixo)fechava o ano do automobilismo gaúcho em 1988, há 19 anos.

Fonte da imagem: Livro 12 Horas

domingo, 21 de outubro de 2007

GP Brasil de Fórmula 1

Hoje é dia de GP Brasil. Todas as atenções dos fãs do automobilismo estão voltadas para Interlagos.

A única vez em que assistí ao vivo uma prova de F1, foi justo no ano em que o Ayrton Senna venceu pela primeira vez no Brasil, em 1991.

A aventura começou quando meu tio "Paulista" chegou lá em casa e fez o convite. Iríamos nós dois e mais dois amigos. Como? Num Fusca 1968 com motor 1600cc todo "mexido". A "barata" era muito bonita, muito bem cuidada pelo tio. Depois de respondido o como, me empolguei mais ainda, pois curtia muito andar naquele Fusca.

Bom, fizemos todo o plano para a viagem. A idéia era começar assistindo o treino de sexta, já que tínhamos ingressos para os três dias. O setor que ficaríamos seria o "G", no final da reta oposta. Saímos de Gravataí, onde ele morava, à meia noite de quinta para sexta. Eu, Paulista, Zé e o Cabeça (nunca vou lembrar o nome dele), num Fusca 68 indo para ver a F1!

Aquela foi a primeira vez que passei pela Estrada do Mar. Não me lembro em que ano foi inaugurada, mas devia ser por aí. A viagem foi muito tranquila. Chegamos em São Paulo após 14 h na estrada. Todos sabem que o trânsito da capital paulista é uma loucura e não demorou muito acertamos a traseira de um XR3... Putz, acho que o cara tinha engate de reboque. Sei que os danos maiores foram no pobre Fusca. O capô amassou bastante, mas logo fomos em uma oficina de um amigo do tio (ele morou lá durante anos) e aquela marreta universal, resolveu o problema. Claro que a pintura foi pro saco, mas isso já era detalhe. Resumo: perdemos o treino de sexta. Quando chegamos no acesso ao autódromo, os carros ainda corriam e era possível escutar o som dos motores na pista. Era demais, mas o sonho de ver ao vivo ficava transferido para o Sábado. O treino de Sábado foi muito legal e me lembro da hora em que o Senna fez a pole. O povo todo comemorou.

Passamos o final de semana dividindo o tempo entre a casa de um tio (que também iría conosco à corrida) e de uma tia, ambos também moraram durante muito tempo por lá.

Bateu 23:00 de Sábado e nos dirigímos ao autódromo. Não, não iríamos acampar dentro dele. Iríamos "apenas" para a fila. Esta era gigantesca. Havia gente de tudo que era lugar do Brasil. Não sei se aquilo era a "Era Senna" ou se isso ocorre todo o ano. Acho que devem ter filas gigantescas sempre. Sinceramente eu não consigo me lembrar se dormí ou não. Talvez de pé...

Os portões abriram às 6:00 e a partir daí o povo começou a se mexer. Demorou um tempão até conseguirmos entrar. Escolhemos um lugar a meia altura na arquibancada e lá estávamos nós. Teve o warm-up, depois uma corrida de bicicletas (sério, com Caloi 10, devia ter umas 100 delas) e o resto é história. O Senna venceu no Brasil pela primeira vez depois de todo aquele sofrimento no final. As arquibancadas tremiam todo mundo se abraçava, foi muito legal. Após a bandeirada o carro do Senna acabou parando no final da reta oposta, bem em frente onde estávamos. Naquele ano não teve invasão de pista, só em 93. Logo que ele parou chegou um Monza Classic que era do apoio e...fomos embora. Putz, o povo já começava a se empurrar para sair e fui levado escada a baixo.

Foi um momento inesquecível.

A viagem de volta foi um pouco mais "apertada", mas igualmente muito legal. Um outro amigo, o Ernani, que fora de avião, voltou no Fusca 68. O cara tinha quase 2 m de altura e obviamente foi no banco da frente. Éramos cinco, então. Eu voltei no meio, com um pé sobre o freio-de-mão e o outro debaixo do banco do motorista. Tirando um pequeno problema com os fusíveis que insistíam em queimar, deixando a visibilidade "zero" durante a noite(as vezes no meio de uma curva...), o resto foi tranquilo.

Ainda me lembro da gente cantando Ole, ole , ole ole, Senna, Senna...

sábado, 18 de agosto de 2007

O Bom e Velho Kart

Quando eu tinha 12 anos, meu padrinho me deu de presente um ciclomotor da Agrale. Era a diversão da família e da rua onde eu morava. A brincadeira durou dois anos, quando conhecí na escola onde estudava, o Dante Moretti Jr, que corria de kart e toda a quinta-feira após a aula ia treinar em Tarumã. Ficamos amigos no primeiro dia de aula e passávamos bom tempo das aulas conversando sobre corridas e desenhando pistas e karts nas últimas páginas dos cadernos. Certo dia ele perguntou se eu não tinha interesse em comprar um chassi Mini 87 que era dele e estava lá na KartSul, oficina do Neco Fornari.

Convencí o meu pai de que seria uma boa idéia, porém faltava a grana. Foi aí que surgiu a idéia de vender a motoca. Meio constrangido, pedí a autorização para o meu padrinho. Ele deu apoio e disse pra ir em frente.
O meu tio, Noel "Paulista" Teixeira - que hoje prepara e pilota carros em algumas categorias aqui no estado - foi decisivo para concretizar o sonho. Ele organizou uma rifa com alguns amigos lá em Gravataí, onde ele tinha uma oficina na época. O prêmio seria a motoca, é claro. Não demorou muito e a grana já estava na mão.

Feliz da vida, fomos lá pegar o kart e partimos para o Tarumã. Os boxes na época, ainda eram na parte interna da pista e me lembro que numa das primeiras vezes que fomos lá, um domingo, havia um monte de gente pra me ajudar, dar dicas e não sei mais o quê. Era muito legal, porém eu ficava muito nervoso com toda aquela expectativa e o tempo não vinha.

O negócio começava a dar resultado mesmo nas quintas, depois das aulas, quando ia com o Dante. Esses dias eram mais calmos e me lembro que por várias vezes éramos só nós e mais um ou dois karts. Quase sempre o Júnior e o "Pequeno", mecas da KartSul estavam por lá acertando o kart do Pedrinho Bartelle, que estreava naquele ano.
A sensação de guiar um kart 125 cm³ era algo incrível. Mesmo não baixando de 38 segundos - naquela época o record da pista era de 34 e alguma coisa, obtido por ninguém menos do que o Ayton Senna, em 1981 - o kart andava muito rápido. Curva 1, "L", primeiro "U", segundo "U", Painel, "S"...era muito legal.
Mas isso não durou muito. Não podia deixar que as notas na escola piorassem por causa do Kart. Resolvi dar um tempo, estudar e depois voltaria.

E lá se vão 15 anos...

Aproveitando o assunto, seguem imagens de kart, sempre em Tarumã: Gérson Morschbarcher #7 e André Steffler #33 em 1985, Marcelo Ventre no #6 e Emanuel Dallegrave no #65 em 1988 e uma prova do campeonato Gaúcho de 1991. Reconheço o #7 do Rodrigo Couto, o #35 do Zeninho Fornari e o #9 do Pedro Bartelle.


O cheiro do óleo 2T queimado, misturado ao combustível era muito marcante. Me lembro como se fosse ontem. Sempre que passo no Kartódromo de Tarumã e tem algum motor 2T na pista eu volto no tempo.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Tudo Azul

Já que citei aquela corrida da Hot-Car que foi preliminar da F2 em 1985, me lembrei que tenho algumas imagens feitas pelo meu pai com uma velha Yashica, cheia das regulagens, que só ele sabia operá-la. Aquele domingo, mais precisamente 31 de Março, foi muito marcante, tanto pelas corridas, quanto pela quantidade de público que havia no autódromo.

Naquela época meus pais preparavam na véspera toda a indumentária e acessórios para passar o dia no Tarumã. Eu também ajudava, mas não me lembro no quê. Talvez enchendo o saco... Para conseguir um bom lugar, tínhamos de sair cedo de casa, as vezes ainda madrugada. Acordar num domingo de corrida era batata, em segundos eu ficava pronto. Por outro lado, quando era para ir à escola, minha mãe tinha sua paciência colocada à prova todos os dias. As vezes a coisa era tão crítica que ela tinha que dizer que era dia de corrida, para ver se eu me animava... Hoje eu me divirto com essa história, mas naquela época ficava p... quando descobria que estava sendo enganado.

Me lembro de algumas vezes que chegamos tão cedo no Tarumã que a bilheteria nem estava aberta, passávamos reto, mas mais tarde vinha o carinha cobrar os ingressos. Outra coisa que também marcou muito aquele dia foram algumas músicas que tocaram antes das corridas, na parte da manhã. Como todo mundo sabe, quando se vai ao Tarumã, ou qualquer outro autódromo, não precisa ter rádio no carro, pois se tem certeza de que esses lugares têm som ambiente. O vizinho do carro ao lado sempre vai colocar o rádio dele no volume máximo pra todo mundo ouvir. Foram três músicas que tocaram que até hoje, 22 anos depois, toda vez que ouço me lembro de todos os detalhes daquele dia. Stilll Loving You do Scorpions, Careless Whisper do George Michael e Tudo Azul do Lulu Santos.

Vamos às imagens: a primeira volta na saída da curva Tala Larga. Notem também a quantidade de barracas, tendas e afins; o pega no primeiro pelotão entre o Hélio Figueiredo Neves (Passat #4), o Julio Horn (Voyage #56), que acabou vencendo a prova naquele dia, depois de largar na 8ª posição, e o Arnaldo Fossá (Fusca #22). Notem como a tela era muito próxima da pista em relação a hoje; no pelotão mais atrás a briga entre o Lárcio da Silveira (Fusca #46) e o Paulo Arias (Fiat 147 #18).

Muito legal ver essas fotos de novo.