Há duas semanas recebi uma mensagem de um cara, um ex-piloto, com algumas imagens anexadas. Ele recentemente ficou sabendo da existência desse espaço aqui por um amigo que mora em Nova York (Uau!!!). Dei uma olhada nas imagens, meio sem acreditar no que estava vendo. Respondi e logo depois, mais imagens. Incríveis, inéditas (para mim). Ele disse que a partir daquela ligação começou a ler o Blog desde o início e que não entendia como alguém poderia ser tão louco por coisas que sequer tinha visto, mas disse também que estava gostando muito de tudo isso.
As vezes sou tomado por uma ansiedade que atrapalha um pouco. Tinha a idéia de dividir na mesma hora com vocês tudo o que aquele baita "bota" tinha me enviado. Logo que respondi a primeira mensagem, perguntei a ele:
"é verdade que tu correste também na Super V?" 20 minutos depois via, abobado, na tela do meu computador, aquela imagem que publiquei como sendo o último Desafio da Semana. Caramba!!! A resposta dos blogueiros foi imediata e certeira.
Era 1975.
Era um Kaimann.
Era em Cascavel.
Era o Antônio João Freire!
Desde então venho falando com o "Janjão", perguntado algumas coisas sobre a trajetória dele nas pistas, coisa e tal. Ele me falou que nem ele lembra ao certo quando iniciou no automobilismo. Lembra apenas que foi antes da inauguração do Tarumã, em uma prova em Florianópolis com chão batido, em dupla com o Moacir Rosemberg num "fuquinha". Coincidência: dia desses o Rogério Monteiro me disse que também participou da mesma prova em Floripa, as "4 Horas", que foram disputadas em 1969. "Janjão" e Rosemberg chegaram em segundo lugar na categoria.
"Janjão" se empolgou com essa história do Blog e lembrou de um tempo que, para ele, andava meio esquecido. De um tempo em que o automobilismo era paixão e moda. Vocês já imaginaram um carro de corridas passear por Porto Alegre, sem precisar da ajuda dos "azuizinhos" ou sem ser pego pelos mesmos? Pois isso acontecia na década de 70. Os mais "rodados" devem lembrar. "Janjão" lembrou por exemplo do Fernando Esbróglio passeando com o Fusca dele, com o capacete pendurado no Santo Antônio, descarga aberta, em frente ao Colégio Bom Conselho, na saída das aulas, ao meio dia.
Fazia "o" sucesso, disse ele.
As menininhas antes de se interessar por você, perguntavam se você tinha carro. Se corresse de carro então... e se fosse bom, nossa...
"Janjão" correu por quase quinze anos. Acumulou títulos, vices e muitas vitórias. Venceu e perdeu campeonatos por detalhes em uma época de muitas disputas nas pistas e fora delas. Passou pelo kart, Divisão 1, Divisão 3, Divisão 4, Fórmula Super V, Copa Fiat 147 e Brasileiro de Marcas e Pilotos. Além deste post pretendo publicar mais alguns nos próximos dias com imagens históricas e histórias que me foram contadas pelo próprio "bota".
As corridas apareceram na vida de "Janjão" por causa do pai. Quando jovem, os amigos dirigiam aos 16, 17 anos, o automobilismo era uma febre entre os jovens, mas o pai não permitia que ele fizesse o mesmo. Esperou para poder dirigir até os 18 anos, ensinado pelo próprio pai. Mas o "professor", enfurecido com as barbeiragens do aprendiz, dizia que ele nunca conseguiria dirigir. Tornar-se um piloto foi uma espécie de "vingança" contra o pai. O mais interessante nessa relação pai e filho é que mesmo não aprovando a participação nas corridas, a cada aparição de "Janjão" em uma matéria de jornal, o pai guardava tudo muito bem organizado em pastas que nesses últimos dias foram novamente manuseadas pelo ex-piloto.
São cerca de 20, me disse ele. O automobilismo gaúcho, bem como uma enormidade de fãs, agradecem.
Conforme já registrei, o início da carreira foi em Florianópolis em 1969 e logo em seguida haveria uma prova de 500 km em Joaçaba, da qual saiu vencedor fazendo dupla com Régis Schuch. Entre outras provas naquele tempo, marcou presença na inauguração do Tarumã, competindo na Classe A com o Fusca #47, chegando em sétimo lugar. O #47 o acompanharia por quase toda a carreira e era raro vê-lo guiando algum carro próprio sem o tal #47. Um exemplo raro será visto mais abaixo.
A Divisão 3 foi o foco do piloto nos primeiros anos. Era a categoria mais badalada, que dava o maior retorno, algo como a Stock Car de hoje. "Janjão" corria patrocinado pela Rádio Continental 1120. Entre 1971 e 1974 disputou provas do Campeonato Gaúcho, Brasileiro e até algumas provas em Rivera, vencendo muitas delas. Ainda naquele período participou de uma etapa do Campeonato Brasileiro de Divisão 4 de 1972 em Tarumã com um protótipo Jamaro-Crysler (alguém sabe que carro era esse?). Nas provas longas teve como parceiros o Fernando Esbróglio, Luís Gustavo Tarragô de Oliveira ("Sapinho"), José Luiz De Marchi, Renato Conill, João Roberto Schimidt ("Schimitão"), Joaquim Fonseca, entre outros. Na prova de 500 km que venceu em Rivera (dividida em baterias) correu sozinho e saiu vencedor, mas vou falar mais dessa prova em breve.
Em 1975 "Janjão" partiria para uma categoria que foi a sensação do automobilismo brasileiro e um celeiro de novos talentos. Mas isso é assunto do post da próxima Segunda. Aguardem.
Abaixo uma série de boas imagens do início da carreira de "Janjão" até 1974.











Na sequência: no kart, em 1971 no #74 (#47 investido para não fugir muito à regra...), disputando posição com um grande rival (no kart #12) do tempo dos Fiats, que vocês certamente saberão quem é pelo tamanho do "guri". Mais abaixo várias de 1974 na Divisão 3 com o Fusca preto preparado pelo Carmelo Carlomagno em meio a disputas com Raffaele Rosito, Maurício Rosemberg, Cláudio Mello, entre outros. Depois os Mavericks, ainda em 1974, em uma prova da Divisão 1 no #47, depois no #91 quando venceu a Taça Souza Cruz, prova de seis horas em parceria com "Schimitão" e De Marchi. Encerro este post com a vitória com o mesmo carro, que pertencia ao "Schimitão", mas agora nas 12 Horas de Tarumã que teve ainda a participação do futuro parceiro na equipe Jardim Itália, Renato Conill.
Fonte das imagens: arquivo "Janjão" Freire, livro 12 Horas, arquivo Júlio Cordeiro.